Sérgio Guedes: 'Ser treinador é muito desgastante'

Em entrevista ao 'estadao.com.br', técnico fala das dificuldades da profissão e festeja sucesso na Ponte

Entrevista com

André Rigue, estadao.com.br

25 de abril de 2008 | 13h27

Responsável por levar a Ponte Preta à final do Campeonato Paulista, o técnico Sérgio Guedes, de 45 anos, conversou com o estadao.com.br nesta sexta-feira. O ex-goleiro contou que a profissão de treinador é muito desgastante e que ele passou por muitas pressões no início do trabalho.   Veja também: Vote: qual time vai ser o campeão de 2008?  Serviço: para quem vai à final Ponte Preta x Palmeiras  Luxemburgo cobra 'emocional' total contra a Ponte Preta  Bate-Pronto: Lula dará sorte à Ponte?   Casado e pai de três filhos, Sérgio assumiu a Ponte Preta no final do Brasileirão da Série B do ano passado. Com poucos recursos para investimento, o técnico procurou por jogadores desconhecidos para formar um time que "planta laranja e colhe laranja", expressão que ele mesmo utiliza para qualificar a equipe.   Ex-pupilo do técnico Geninho (atualmente no Atlético Mineiro), Sérgio disse que espera continuar na Ponte para a disputa da Série B. O treinador disse que tem por perfil profissional ser detalhista e que está acostumado à rotina no Moisés Lucarelli. Sobre a final do Paulistão, ele admitiu que o Palmeiras é favorito.   estadao.com.br - Porque você decidiu ser treinador? Sérgio Guedes - Quando você está no fim da carreira, e como atleta que fui, você já sabe que as pessoas te respeitam. Eu nunca pensei que seria isso ou aquilo. As coisas têm de acontecer nos momentos certos. Como você ama fazer isso [estar no futebol], você passa a receber vários convites. Fiz um estágio com Geninho no Corinthians, e as coisas começaram a clarear. Procurei clubes, desenvolvi trabalhos, mas sempre coisas sérias.   Seu primeiro clube como treinador foi a Portuguesa Santista, em 2004. Desde então, qual o maior aprendizado que a profissão passou para você? Você aprende coisas boas e ruins. Aprendemos o que não se deve fazer. Quando você joga futebol, a própria liderança no grupo te dá uma noção de como se deve agir. Aprendi a lidar com várias situações. Hoje tento ser realista, saber priorizar o que vou fazer.   Você chegou ao profissional da Ponte no final da Série B de 2007. A torcida e a imprensa de Campinas viu com certa desconfiança sua efetivação. Como você se sentiu no início deste ano? Eu tive duas coisas [tranqüilidade e pressão]. É muito fácil julgar depois [do sucesso]. Houve uma certa desconfiança no começo, porque eu tinha trabalhado na base da Ponte. Como eu não tenho o hábito de pagar para falar bem de mim [crítica à imprensa de Campinas], como alguns fazem, eu tenho de demonstrar trabalho.   Telê Santana tinha como característica cuidar de todos os detalhes. Acordava de madrugada para observar a grama, lia jornal, checava os vestiários. E o seu estilo? Eu tenho esse hábito, de ver se tudo está direitinho. Sou bastante [detalhista]. Eu acho que isso é importante e desgastante. Porém, se você quer fazer a coisa certa, tem de ter essa postura mesmo. Mas você precisa de parceiros para trabalhar. Senão você enlouquece.   Você falou em desgaste... o técnico do São Paulo, Muricy Ramalho, disse que a profissão de treinador é "ingrata e cansa muito". Como você enxerga a profissão? Ele está certo. Isso acontece mesmo. As pressões que as pessoas impõem é muito grande. A gente percebe no semblante da pessoa quando ela está agoniada. A gente se envolve muito. Quando você quer fazer uma coisa série, você acaba desagradando muita gente.   No ano passado, Dorival Júnior explodiu no São Caetano ao chegar à final do Paulistão. Depois, foi para o Cruzeiro. Você espera trabalhar na primeira divisão do Brasileirão ou vai ficar na Ponte para a Série B? Eu tenho um projeto na Ponte. É claro que depende da diretoria. Pelo que eu sinto, tenho perspectivas de fazer um bom projeto. O acesso à Série A é um dos objetivos do clube.   Seu contrato com a Ponte vai até quando? Meu contrato com a Ponte hoje é de palavra...   Como foi montar este elenco e alcançar a final do Paulistão, já que a Ponte não fez grandes investimentos? Não fez um grande investimento, mas contratou boas pessoas. É muito relativo você gastar mal, contratando nomes que não darão certo. A Ponte fez uma coisa criteriosa, para descobrir bons jogadores [contratou 16 reforços] que a mídia e o mercado não conhecem. A gente, como está no meio do futebol, tem a obrigação de conhecer. A dúvida era se a camisa seria bem vestida [pelos atletas]... E aconteceu.   Foi uma surpresa chegar à final? Eu esperava um bom campeonato. Quando você acredita muito naquilo que você faz, e nas pessoas que estão ao seu lado, a expectativa passa a ser muito boa porque você cercou as possibilidades. Não fizemos um tiro no escuro e as coisas aconteceram. Existiu um trabalho muito sério, privilegiando a entidade.   Qual o ponto que você destaca como o diferencial na Ponte Preta? É a força do conjunto, a simplicidade.   Domingo, o Moisés Lucarelli vai estar lotado. A torcida esgotou os ingressos. O que podemos esperar da Ponte? A mesma coisa de sempre: uma equipe ajustada. A torcida, que está eufórica, nos dará muita força.   O Palmeiras joga com o status de favorito. Você concorda? O histórico diz que o Palmeiras é favorito.   Qual será a arma para parar o chileno Valdivia? Eu acho que o Palmeiras tem um conjunto bom, com o Valdivia como referencia. Temos de nos preparar para isso.   Em 1987, a Ponte caiu para a Série A-2 em jogo contra o Palmeiras (derrota por 1 a 0) Pode ser uma revanche? Não! Eu estava neste time de 1987 [Sérgio jogou como goleiro por oito anos na Ponte]. Naquele ano, a Ponte plantou laranja e queria morango. Cada um tem aquilo que merece.   O preparador físico da Ponte, Rui Palomo, atravessou o campo do Guaratinguetá de joelhos após a vitória. Você fez alguma promessa caso a Ponte conquiste o título? Não! Eu tenho os pés no chão. Tudo o que vem é merecimento. Você planta laranja e colhe laranja. Vem aquilo que você plantou.

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