"Serviço sujo" é com Flávio Conceição

Já era preciso ter uma personalidade maleável demais para ser jogador do Real Madrid e não atender pelo nome de Ronaldo, Raúl, Zidane e Figo. Era preciso controlar o ego e esquecer que é jogador de seleção brasileira ao ser preterido pela maioria dos jornalistas e torcedores. Tudo que já era ruim para um coadjuvante ficará ainda pior com a chegada de Beckham. Flávio Conceição revelou à Agência Estado os bastidores do maior clube do mundo. Na sua festa pelo 29° aniversário em Americana, o jogador mostrou os dois lados de pertencer ao ?Dream Team? do futebol. ?Enquanto as estrelas brilham, alguém tem de fazer o trabalho sujo?, ironiza. Agência Estado ? Vale a pena ser apenas mais um entre as estrelas do Real Madrid? Flávio Conceição ? É um privilégio estar no elenco mais valorizado do mundo. O Real Madrid pode comprar o jogador que quiser. A contratação do Beckham prova isso. É estranho mesmo ser assediado no Brasil e na Espanha acompanhar torcida e imprensa procurando os outros jogadores. Mas eu entendo. Eles são mesmo estrelas. Mas para o mundo lá fora. Entre nós, o tratamento é de igual para igual. Eu me sinto perfeitamente integrado. Respeito, mas também sou respeitado. AE - Como é a rotina do Real? Flávio Conceição - É um clube com grandes obrigações. Tem infra-estrutura invejável, mas a cobrança é imensa. Cada partida nossa é cercada de expectativas muito diferentes das dos outros times. Imagine uma equipe com Ronaldo, Raúl, Zidane, Figo e os outros todos com condições de servir às seleções de seus países. Treinamos forte para não decepcionar. Quanto ao assédio, é enorme mesmo. E uns são mais procurados do que outros. Dá para entender. AE - Como vocês estão esperando a chegada de Beckham? Tudo vai ficar pior? Flávio Conceição - O assédio vai aumentar ainda mais. Sabemos que deveremos jogar muitas partidas do Espanhol ao meio-dia para que a Ásia, que ama o Beckham, possa acompanhar pela tevê. O lucro será imenso. Vale a pena a loucura que iremos viver. AE - Você tem certeza de que continuará no Real? Mesmo não sendo titular? Flávio Conceição - Tirando as estrelas, não existe essa história de titular. O Madrid tem várias competições e há um revezamento entre nós. Já estou há três anos lá e me sinto perfeitamente integrado. Meu contrato terminará em 2006. Os dirigentes se mostram satisfeitos com o que faço em campo. Tive algumas propostas para sair, só que não quis. O Madrid cumpre os seus compromissos financeiros. Há uma crise enorme na Europa. Estou bem demais lá e não quero sair. AE - Mas os comentários são de que haverá poucos lugares disponíveis no time... Flávio Conceição - Sempre foi assim. Eu tive uma contusão no tendão de Aquiles e fui operado. Muitos jornalistas espanhóis garantiram que eu sairia. Só que depois de me recuperar provei o meu talento e fiquei. Será a mesma coisa agora. AE - De onde vem essa certeza? Flávio Conceição - Do fato de que para as estrelas brilharem alguém precisa fazer o ?trabalho sujo?. Ou seja: marcar. Para o Madrid fazer as jogadas que encantam torcedores do mundo inteiro, alguém precisa roubar a bola do adversário. Isso é comigo e com os outros que você está chamando de coadjuvantes. AE - Dentro desse cenário, você nem pensa em voltar ao Brasil... Flávio Conceição - Só quando for para encerrar a minha carreira. Jogarei pelo Rio Branco, que me revelou aqui em Americana, clube ao qual serei eternamente grato. Mas agora estou vivendo o sonho de atuar no Real Madrid. Minha família está perfeitamente integrada e também quer ficar na Espanha. Não tenho motivo para voltar agora. AE - E a seleção brasileira? Flávio Conceição - Lógico que eu quero ser chamado. Estou ansioso com a chegada do Parreira, para ter novas chances. Enquanto isso, vou me dedicar como puder ao Madrid.

Agencia Estado,

04 de julho de 2003 | 20h46

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