Renan Cacioli / Estadão
Renan Cacioli / Estadão

Sessão de oito horas no TJD tem repetições e pouca novidade no caso do dérbi

Testemunhas negam interferência externa na arbitragem; veja o que cada uma disse nesta terça-feira

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2018 | 00h58

Foram sete testemunhas ouvidas durante cerca de oito horas nesta terça-feira, pelo TJD-SP (Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo), que investiga suposta interferência externa na arbitragem do Palmeiras x Corinthians da final do último Campeonato Paulista. Com muitas repetições de perguntas, algumas questões de ordem e nenhuma prova inédita apresentada, a sensação ao fim da extensa sessão foi de que dificilmente o resultado do jogo será anulado.

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O trâmite legal do processo a partir de agora será o seguinte: o auditor Marcelo Augusto Gondim Monteiro vai produzir um relatório baseado nos depoimentos coletados e nas provas apresentadas pelo requerente (o Palmeiras) e pela parte interessada (a Federação Paulista de Futebol). Na segunda-feira (23), este documento chegará às mãos da procuradora Priscila Carneiro de Oliveira, que decidirá, então, pela apresentação ou não de denúncia. Se ela der prosseguimento, o caso vai a julgamento. Se não, este será arquivado. Aí, caberá ao Palmeiras recorrer ou não da decisão. 

De maior novidade na sessão que começou às 14h e terminou por volta das 22h, o testemunho do chefe de arbitragem da FPF, Dionísio Roberto Domingos, que não havia se manifestado desde o dérbi do último dia 8. Ele é a peça-chave da acusação palmeirense e foi o último a falar no Tribunal. Em discurso parecido com o das testemunhas anteriores, negou ter orientado a arbitragem do jogo a mudar a marcação do pênalti de Ralf em Dudu que iniciou toda a confusão.

"Não conversei com ninguém. Naquele instante, me desloquei para observar o que estava acontecendo", falou Dionísio, que desempenhou o papel de tutor de arbitragem no dérbi, função na qual está proibido de se comunicar com os árbitros dentro do campo a respeito de questões técnicas.

Apenas para contextualizar, a acusação palmeirense se baseia justamente em uma suposta comunicação entre Dionísio e o árbitro assistente Anderson José de Moraes Coelho. Foi logo depois disso, segundo o clube alviverde, que se deu toda a sequência que culminou na anulação do pênalti: o quinto árbitro, Alberto Poletto Masseira, correu para avisar algo ao quarto árbitro (Adriano de Assis Miranda) e este informou o juiz Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza. Entre o instante da penalidade e a retomada da partida apenas com o escanteio a favor do Palmeiras, passaram-se mais de sete minutos.

"Fiz aquele movimento porque vi um tumulto de jogadores. Minha vontade na hora era simplesmente verificar o que estava acontecendo", respondeu Dionísio, em um das várias vezes em que precisou reiterar o que dissera pouco tempo antes.

A principal prova da acusação foram imagens mostrando as movimentações dos membros da equipe de arbtitragem, além de Dionísio e do delegado da partida, Agnaldo Vieira. O clube já havia, na semana passada, postado em seu site o vídeo que provaria "de maneira inequívoca e irrefutável" a interferência, algo que a FPF negaria posteriormente.

Este voltou a ser utilizado no Tribunal em diversas intervenções dos advogados diante das sete testemunhas, o que contribuiu para alongar a sessão. A dinâmica desta, aliás, tornou cada depoimento um exercício de paciência. Em determinado momento, por exemplo, um dos integrantes da mesa citou até o jogo entre Real Madrid e Juventus, pela Liga dos Campeões, para fazer uma analogia. Toda testemunha era sabatinada pelos dez integrantes da mesa, sendo que, em determinadas situações, o mesmo elemento pedia novamente autorização para elaborar uma nova questão que julgava ser pertinente.

Confira abaixo um resumo do que falou cada testemunha:

Agnaldo Vieira - delegado do jogo

Apesar de sua função se limitar a questões administrativas, como representar a FPF no campo, foi exposto em um dos vídeos mostrados pela acusação em momento no qual se aproxima do quarto árbitro para dizer alguma coisa. Alegou ter apenas orientado este a se afastar do banco palmeirense, para evitar que sofresse ainda mais pressão. Falou que, entre suas prerrogativas, está auxiliar a arbitragem a acalmar a situação em casos de tumulto.

Anderson José de Moraes Coelho - árbitro assistente 1

Disse que não se manifestou no instante da marcação do pênalti porque não teve visão da jogada. Que em nenhum momento opinou sobre o lance, mesmo quando o árbitro o procurou visualmente: "Balancei a cabeça negativamente, mostrando que não poderia ajudá-lo com aquela decisão". Admitiu demora no desfecho da jogada e disse ser incomum a presença do diretor de arbitragem à beira do campo  – lembrando que Dionísio estava lá como tutor de arbitragem.

Daniel Paulo Ziolli - árbitro assistente 2

Garantiu não ter recebido orientação de ninguém externo ao campo e escutou pelo rádio o quarto árbitro avisar que deveria ser assinalado escanteio, e não pênalti, na disputa entre Ralf e Dudu. Falou que a primeira manifestação de Dionísio com a arbitragem se deu no vestiário, após o jogo, quando questionou a demora na tomada da decisão.

Alberto Poletto Masseira - quinto árbitro

Falou que, entre suas atribuições, está substituir algum árbitro assistente, auxiliar no trâmite das substituições de jogadores e a manter a ordem nos bancos de reservas. Ele também foi mostrado em imagem na qual corre em direção ao quarto árbitro para dizer algo. "Corri porque ele estava acuado pelos jogadores. Disse 'sai daqui!'".

Adriando de Assis Miranda - quarto árbitro

Informou que o plano de jogo previa a sua movimentação pela lateral do campo onde ficam localizados os bancos de reservas, justamente para ajudar o árbitro em lances difíceis. Que, imediatamente após o juiz dar o pênalti, gritou a palavra "canto" (indicando escanteio) três vezes pelo radiocomunicador, mas que não recebeu "feedback" (retorno) de que Marcelo Aparecido compreendera o recado. Então, em vez de entrar logo no gramado para falar com o árbitro, teve de conter os atletas do Corinthians que o pressionavam. Segundo Adriano, alguns jogadores, apesar da distância em relação a ele e do barulho no estádio, ouviram quando ele gritou "canto". Um deles teria sido o volante Gabriel (um dos auditores do TJD chegou a sugerir que o atleta fosse intimado a depor, mas ao fim da sessão recuou considerando tal testemunho desnecessário). 

Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza - árbitro principal

Disse ter visto toque de Ralf na perna de Dudu. Que, no momento da marcação, não escutou a orientação do quarto árbitro pelo rádio avisando que o lance era escanteio, e não falta. Afirmou ainda que decidiu acatar a opinião de Adriano por considerar que este tinha visão lateral da jogada. Apesar de estar mais próximo do lance, ponderou que sua visão era de quem corria atrás dos jogadores. Também explicou que a demora na tomada da decisão se deu pela dificuldade na comunicação via rádio. "E ali dentro do campo a gente nem teve noção de que havia demorado tanto", disse.

Dionísio Roberto Domingos - tutor de arbitragem

Além dos fatos já mencionados, admitiu que portava um aparelho celular no campo, mas que o mesmo se encontrava no bolso e desligado, seguindo orientação da FPF. Que não fez nem sequer contato visual com o árbitro. Também informou que o técnico corintiano, Fábio Carille, aproximou-se dele durante a confusão e disse algo ("uma série de coisas que eu nem sei o que foram").







 

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