Shakhtar Donetsk é responsável por uma revolução brasileira na Ucrânia

Com dinheiro de sobra, equipe enche o time de jogadores 'made in Brazil' e sonha alto na Copa dos Campeões

MATEUS ALVES SILVA, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2013 | 10h58

Nos tempos românticos do futebol europeu, quando apenas um time de cada país disputava a Copa dos Campeões, o Dínamo de Kiev era a grande potência da Ucrânia e de vez em quando assustava os gigantes do continente. Disputar a final do torneio, no entanto, foi um sonho não realizado pelo clube, que caiu três vezes na semifinal. Com o tempo, o romantismo desapareceu do futebol e a Copa dos Campeões se tornou um território inóspito para as equipes ucranianas.

Cumprir papel de coadjuvante no torneio parece ser a sina dos clubes da Ucrânia, mas o Shakhtar Donetsk não está disposto a se submeter a essa sina. Usando a mesma arma dos grandes times da Europa – dinheiro em abundância –, o clube de Donetsk, cidade industrial localizada perto da fronteira com a Rússia, a cada ano aparece com mais força na Copa dos Campeões e seu objetivo é triunfar onde o rival Dínamo de Kiev falhou. Ou seja, ir à decisão. Para isso, é obrigatório eliminar nas oitavas de final a ótima equipe do Borussia Dortmund – o primeiro jogo será quarta-feira, em Donetsk.

Fundado em 1936, o Shakhtar só começou a prosperar em 1996, quando foi comprado pelo empresário Rinat Ahmetov. Apaixonado pelo clube, ele decidiu que iria gastar bastante dinheiro para torná-lo a principal potência do país e, mais do que isso, ser respeitado fora das fronteiras ucranianas. E gastar bastante dinheiro não é um problema para Ahmetov. Segundo a revista americana Forbes, ele é o homem mais rico da Ucrânia e o 39.º do mundo, com patrimônio de US$ 16 bilhões (aproximadamente R$ 31,5 bilhões).

Embora nunca tenha trabalhado no futebol, o magnata deu uma bola dentro ao perceber que para fazer sucesso internacional seria preciso aumentar o nível técnico do time e que seria impossível fazer isso com jogadores ucranianos. Com a valiosa ajuda do técnico romeno Mircea Lucescu, contratado em 2004, Akhmetov começou a investir em jogadores brasileiros – jovens, de preferência. A fórmula se mostrou um tiro certeiro.

“Quando fui para lá, em 2005, o clube era pouco conhecido, mas a estrutura já era muito boa”, lembrou o meia são-paulino Jadson, um dos primeiros brasileiros a jogar no Shakhtar. “A primeira meta era começar a ganhar na Ucrânia. Deu certo e aí o time cresceu bastante”, completou o jogador, que descreve Akhmetov como um homem discreto, que deixa a equipe trabalhar sem fazer muita pressão.

O dinheiro do bilionário deu muitos títulos ao Shakhtar, entre eles sete Campeonatos Ucranianos e uma Copa da Uefa, em 2009. O clube roubou do Dínamo de Kiev o posto de principal força do futebol do país apostando em brasileiros. Muitos brasileiros. Além de Jadson, chegaram a Donetsk Brandão (o primeiro de todos), Matuzalém, Elano, Fernandinho (até hoje um dos pilares do time), Ilsinho, Luiz Adriano, Douglas Costa, Willian... A lista é grande, e não para de crescer. Na sexta-feira, foi apresentado pelo clube o atacante Taison, o mais novo integrante do exército verde-amarelo que tomou a cidade de assalto.

Superar bichos-papões como Barcelona, Real Madrid e Manchester United para ganhar a Copa dos Campeões parece tarefa difícil demais para o Shakhtar, mas Juventus e Chelsea perceberam na primeira fase que os ucranianos não estão para brincadeiras – tanto que os ingleses, atuais campeões, foram eliminados. Se o time de Donetsk falhar, não será por falta de ambição. Ou de dinheiro. Ou de brasileiros.

Elano não esquece os dias difíceis que viveu em Donetsk

Quando recebeu a proposta do Shakhtar Donetsk, no começo de 2005, Elano jamais havia ouvido falar do clube. Mas a boa estrutura e, principalmente, o ótimo salário fizeram o meia aceitar a aventura de deixar Santos rumo ao desconhecido. Nos dois anos e meio em que ficou em Donetsk, Elano ganhou bastante dinheiro e experiência, mas sofreu muito com o duro clima do interior da Ucrânia, como ele admite.

Treinar e jogar com temperaturas bastante abaixo de zero era corriqueiro para Elano. Mas o pior, segundo ele, era ver sua família viver em um lugar tão diferente do Brasil. “Eu tinha lá esposa e filha pequena e elas não podiam sair de casa”, recordou. “Elas sofreram muito porque não tinham o que fazer. O único shopping center da cidade estava ainda em construção e não havia bons restaurantes. Andar na rua também não era muito bom, já que a cidade não tem muitas atrações. A única coisa boa que havia lá era o restaurante do hotel do dono do Shakhtar. Passamos dois anos e meio naquele restaurante”, completou ele, aos risos.

Embora não se arrependa de ter ido para o Shakhtar, Elano ficou feliz da vida quando o trocou pelo Manchester City, em 2007. “Queria sair para ser mais visto, para não ficar fora da seleção. E viver lá é muito difícil.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.