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Sheriff, sensação da Champions, tem estrutura 'ostentação' com três estádios, diz brasileiro

Zagueiro Victor Oliveira revela detalhes do clube moldavo, além de ressaltar as diferenças do futebol brasileiro e europeu e como é morar num país com resquícios da antiga União Soviética

Rodrigo Sampaio, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 10h00

A Liga dos Campeões retorna nesta terça-feira para a sequência da disputa na fase de grupos, com os olhares curiosos e atentos para o Sheriff Tiraspol, time da Moldávia que em sua estreia no maior torneio de clubes do mundo já conseguiu a façanha de vencer o Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu e liderar sua chave. O audacioso feito surpreendeu a todos que esperavam uma vitória madridista, até mesmo para quem conhecia o clube moldavo por dentro e sabia do que a equipe era capaz. É o caso de Victor Oliveira, zagueiro brasileiro que viveu a experiência de jogar e ser campeão pela equipe europeia em um dos cenários mais alternativos do futebol europeu. 

Após o apito final em Madri sacramentar o triunfo do Sheriff por 2 a 1 sobre o grande Real Madrid, Victor fez questão de parabenizar os ex-companheiros pelo feito. Ex-Santa Cruz, o jogador — que também coleciona passagens por Fluminense e Atlético-GO — falou com o também brasileiro Cristiano, um dos melhores em campo e responsável pela assistência no gol de Yakshiboev, que abriu o marcador naquela partida. Mesmo já tendo deixado a Moldávia há quatro anos, o atleta guarda com carinho o período em que atuou pela equipe, o descrevendo como “intenso”, com títulos e a primeira classificação do clube para um torneio internacional — a Liga Europa. A participação na Liga dos Campeões era iminente. 

"A gente realmente acreditava. A gente conversava, entre os brasileiros, que seria questão de tempo chegar, mas não imaginava que seria tão rápido", disse Victor ao Estadão. "Desde que eu saí, o clube vinha em um crescimento fenomenal."

Com apenas 24 anos de história, o Sheriff é heptacampeão nacional e já conquistou 19 vezes o Campeonato Moldavo, sendo a primeira em 2000. Com Victor Oliveira em campo, o time conquistou a liga nacional de 2016-2017, mesma temporada em que ergueram a taça de campeão da Copa da Moldávia. A hegemonia no país não é por acaso. De acordo com o brasileiro, o clube dispõe de uma estrutura de ponta, que conta com três estádios para a disputa de seus jogos. 

Mas onde fica a Mondávia? A República da Moldávia é um pequeno país no mapa, sem saída para o mar, localizado no leste da Europa. Faz fronteira com a Romênia a oeste e a Ucrânia a norte, leste e sul. Dizem que os moldavos são bons anfitriões. Lá, a língua oficial é o romeno.

"A estrutura do Sheriff chega a ser uma ostentação. Em uma curta análise, tinha muita coisa que seria desnecessária, como por exemplo as arenas. Uma indoor para o período de frio, outra para competições nacionais e outra ainda, maior, para partidas internacionais. Campos para treinamento são seis ao todo. No Brasil, se o clube tem uma boa condição, trabalha no máximo com três campos", compara o zagueiro. Os CTs do São Paulo e do Palmeiras, por exemplo, têm três campos cada.

Apesar da estrutura de fazer inveja a clubes grandes do Brasil, incluindo hotéis e alojamentos aclopados, o jogador admite que o Sheriff pecava em “detalhes” nas competições, o que acabava influenciando para a equipe não decolar fora de solo moldavo. Ele cita uma defasagem nos departamentos de fisiologia, fisioterapia e nutrição, e sugeria aos membros do clube que tivessem como referência as equipes do oeste na Europa, onde acontecem as principais ligas — Inglês, Espanhol, Alemão, Italiano e Francês. Era preciso olhar para o futuro e abandonar de vez o passado com ares russos. 

"Na minha época tinha um médico para cuidar de tudo, incluindo alimentação", diz Victor, afirmando, ainda, que o corpo de colaboradores já estava passando por mudanças naquela época. Mais profissionais foram se junto ao futebol do clube. Para o brasileiro, isso fez com que o time desse um salto. 

Dentro de campo, o jogador contou com a ajuda do preparador físico brasileiro Michel Huff, com experiência no futebol do leste europeu, para conseguir se adaptar mais rapidamente ao estilo e ritmo de jogo local. Entre as diferenças no treinamento dado na Europa com o do Brasil, Victor destaca os treinos longos, com menos intensidade e trabalhos específicos para cada setor, incluindo uma maior cobrança em detalhes, como o posicionamento do corpo e o jeito para bater na bola. 

"No Brasil não sinto essa cobrança detalhada, fica mais por conta do atleta mesmo, a experiência de ele já ter realizado ou não aquele trabalho", observa. 

Fora das quatro linhas, marcas da União Soviética

O Sheriff é um clube de Tiraspol — cidade na qual carrega o nome —, capital da Transnístria, estado não reconhecido pela comunidade internacional que se declarou independente em 1990. A região se considera uma nação, com direito a governo, moeda e bandeira próprias, e está situada dentro das fronteiras pertencentes à Moldávia, que, por sua vez, fazia parte da antiga União Soviética. Não ouse chamar os torcedores do clube de “moldavos”. Eles se consideram russos. O fato ajuda a explicar o histórico imbróglio envolvendo o território, que se recusa a fazer parte do novo país desde a dissolução da URSS. 

Segundo Victor Oliveira, além do frio “insuportável” para um paraense, Tiraspol surpreende pela arquitetura e urbanidade ainda marcada pelo período soviético, com uma paisagem pouco modificada mais de 30 anos depois. O zagueiro conta que é comum ver carros e ônibus antigos rodando pelas ruas da cidade. Dar de cara com veículos militares também faz parte do dia a dia. O clube, mesmo que indiretamente, também se faz onipresente, uma vez que Sheriff nada mais é do que um conglomerado de empresas, dentre as quais estão supermercados, postos de gasolina, construtora, emissora de televisão e, por fim, time de futebol. 

O tradicional arroz com feijão dificilmente poderá ser apreciado na Transnístria. Contudo, isso não foi problema para o jogador brasileiro, salvo pelas tradicionais massas, sopas e carnes da gastronomia russa, bem mais fáceis de encarar do que o que os brasileiros encontram na China quando vão tentar a sorte no país asiático. Por outro lado, o idioma foi uma barreira inicialmente para Victor, já que o inglês é dispensado na Tiraspol. A situação motivou o jogador a contratar uma professora e ter aulas de russo. 

"O que me ajudou bastante foi o farto de outros brasileiros que já estavam lá e já tinham uma comunicação fluente, mas depois comecei a me virar, conseguia ir em restaurantes e mercados. Mas abrir uma conversação, aí já era mais difícil", lembra aos risos. 

A experiência na Europa, segundo Victor, foi importante para olhar o futebol além da bolha. O contato com jogadores de diferentes cantos do mundo mudou sua percepção tanto futebolisticamente quanto culturalmente. "Imagina dentro de um campo ter representantes de seis nacionalidades diferentes, falando línguas diferentes, pensando futebol de maneira diferente. Querendo ou não, isso abre sua mente para o futebol."

LIGA DOS CAMPEÕES

Liderando o Grupo D com 6 pontos, o Sheriff volta a campo nesta terça-feira para enfrentar a Inter de Milão, terceira colocada na chave com apenas um ponto. O confronto acontece no Estádio San Siro, em Milão, às 16h (horário de Brasília). 

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