Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Simon se mostra otimista com árbitro de vídeo: 'Erros vão diminuir com o VAR'

Ex-árbitro faz balanço positivo de novidade utilizada na Copa do Mundo da Rússia

Entrevista com

Carlos Eugênio Simon, ex-árbitro e comentarista

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2018 | 05h00

Carlos Eugênio Simon comandou nada menos do que 1.198 partidas em sua carreira como árbitro de futebol. Foram três Copas do Mundo (2002, 2006 e 2010) e muita experiência para conversar sobre a atuação dos juízes na primeira fase do Mundial da Rússia. Hoje, Simon está na Rússia, onde é comentarista de arbitragem para o canal Fox Sports Brasil, e recebeu a reportagem do Estado para uma conversa em Moscou.

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Qual é o balanço da arbitragem na primeira fase da Copa?

Essa é a primeira Copa do Mundo que temos opção do árbitro de vídeo (VAR). Eu sou favorável a tudo o que possa legitimar o resultado de um jogo. Portanto, sou favorável ao uso da tecnologia no futebol. Várias decisões foram tomadas corretamente devido à intervenção do VAR. Foram 24 pênaltis marcados em 48 jogos na primeira fase e nove deles tiveram a interferência do árbitro de vídeo. O balanço é muito positivo e a arbitragem segue no caminho correto.

Você acha que o VAR precisa de algum tipo de ajuste?

Veja, talvez seja necessário padronizar protocolos dessa interferência positiva. No jogo entre Peru e Dinamarca, o Cueva sofreu pênalti não marcado, o árbitro de campo buscou o auxílio do VAR e a decisão final, correta, demorou um minuto e doze segundos, tempo muito bom. Já em Arábia Saudita e Egito, para mim não houve a penalidade no gol da Arábia, o centroavante puxa o adversário primeiro. Até a validação do pênalti, foram mais de quatro minutos, muito tempo.

Tem algum tempo predeterminado para resolver as dúvidas?

Não tem. A regra só diz que o árbitro deverá acrescentar no final do tempo os minutos de paralisação por causa do auxílio do VAR.

Você acha que os árbitros de campo e do VAR já traçaram uma rotina informal para facilitar o trabalho?

Não tem isso. Tudo é seguido de acordo com as regras. Hoje, são oito árbitros trabalhando em jogo na Copa do Mundo. Quatro em campo e quatro na sala do VAR, aqui no IBC, que fica pertinho do estúdio da Fox. Eu vi como funciona, mas tem uma coisa que não vai acabar, que é a interpretação, a subjetividade de um lance.

Então erros vão acontecer?

O lance factual, o VAR vai corrigir. Como o pênalti assinalado sobre o Salah (Mohamed Salah sofreu falta dentro da área no jogo Rússia 3 a 1 Egito e o juiz havia marcado falta fora da área). Ele nem foi ver na TV, apenas escutou no ponto eletrônico e corrigiu a marcação, evitando um erro grave. Mas outros lances são mais difíceis. Aqui, conversando com ex-jogadores, ex-juízes, ex-técnicos e também jornalistas, cada um tem uma opinião diferente sobre determinado lance e isso vai continuar.

Então não tem como acabar com os erros de arbitragem?

O árbitro de vídeo não é a solução para todos os problemas do futebol. Perfeição é só com o “Velhinho” lá de cima. Os erros vão diminuir, mas as discussões vão continuar.

 

Por que um lance de mão na bola o juiz marca pênalti no Brasil e em um lance parecido na Copa outro árbitro não assinala?

A arbitragem em uma Copa do Mundo é diferente de todos as outras, do Campeonato Brasileiro, Gaúcho, Paulista, Argentino, Inglês, Espanhol. Houve um lance de bola na mão na vitória da Argentina por 2 a 1 sobre a Nigéria. O Marcos Rojo não teve nenhuma intenção, ação deliberada ou antinatural que justificasse a marcação do pênalti. O juiz acertou, nem precisava do VAR.

Um árbitro está preparado psicologicamente para ouvir que errou?

O juiz de futebol precisa, acima de tudo, de humildade. Eu queria ter apitado com o VAR. Depois que encerrei minha carreira, revi alguns lances, vi que errei e pedi desculpas publicamente. Sou ser humano, errei e pedi perdão. Veja, nesse Mundial, o Cristiano Ronaldo e o Messi, que são dois dos maiores jogadores da história, perderam pênaltis, erraram. O árbitro também vai errar. Por isso, é preciso que a Comissão de Arbitragem da Fifa tenha uma conversa franca, de peito aberto, com todos, para que aceitem a ajuda do VAR.

O que você achou das duas partidas apitadas pelo trio brasileiro?

Sandro Meira Ricci, Emerson de Carvalho e Marcelo Van Gasse tiveram atuações ótimas. Eles apitaram Croácia x Nigéria e França x Dinamarca. Estamos todos torcendo para o Brasil ir para a final e ser campeão, mas, caso a seleção seja eliminada, eles poderão, e merecem, apitar jogos das fases mais agudas do torneio.

O que você espera das arbitragens nas fases finais?

Esses jogos serão mais difíceis e com o uso do VAR tudo ficará melhor para o árbitro. Até agora, foram apenas três expulsões, os jogadores estão pensando melhor porque sabem que tem câmeras. Acho que todos os atletas vão assimilar isso e vão rever, por exemplo, aquela história de agarra-agarra dentro da área. O VAR veio para ajudar. E, na Copa do Mundo de 2022, no Catar, tudo estará bem melhor.

 

 

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