Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Simular dor também dói

E é por isso, pela familiaridade que tem com passos brasileiros, que a Telstar, vos digo, está destinada a levar a seleção à final

Pedro Bial, apresentador

04 Julho 2018 | 04h00

Se não bola, samambaia: é tudo que eu queria ser durante a Copa. De feliz grado, que se me instalassem, dentro de vaso bem regado, diante da TV, com ou sem cerveja ou time de preferência; ali, imóvel, vicejante planta, feito inteiro de contemplação e êxtase fotossintético. E que fosse samambaia dotada de audição, para que a voz de Galvão falasse comigo sobre o tempo de jogo - largo para quem está à frente, mínimo para quem corre atrás -, sobre o abismo entre intenção e execução. Neste mês, o maior cantor do mundo é Galvão Bueno. O português de nosso speaker ganha contornos de mandarim, observem, quando canta alongando em agudo crescente a palavra “tuuudo”, a proclamar a verdade: “A Copa é um grande barato!”

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Ou bola. Virar bola seria o fino. Pois a bola é uma espécie de inseto ao contrário - enquanto aqueles só existem no plural, sendo todos juntos, um, e um sozinho, nenhum -, a bola, a mil outras iguais e idênticas, é cada uma, a bola, única, cheia de personalidade, cada qual dada a caprichos singulares e incomparáveis. Testemunha do certame, esta sim, mais que mil VARs, é onipresente assistente, parece a mais exposta, mas engana, não se mostra, esconde-se sob patadas craques, ora confundida com uma flor, ali deixada por distração maliciosa de um jardineiro russo, cantor de ópera nas folgas.

Nem tão notória fez-se dessa vez, não é exibida como Jabulani, nem maldita como Brazuca, tem nome de satélite e carrega chips nos gomos, a Telstar 18, xará reencarnada da bola mais bem tratada das Copas, a de 70.

E é por isso, pela familiaridade que tem com passos brasileiros, que a Telstar, vos digo, está destinada a levar a seleção à final, atendendo ao sobrenome ancestral do Philippe, aposto de Pelé que é Coutinho, bem como ao Júnior de nosso 10, a reafirmar que Neymar tem pai. Uma exceção social brasileira: de nossos 11, 6 foram criados pela mãe, sem pai.

 

Acima de tudo, graças ao codinome de - olhem para ele - Paulinho... barba, cabelo e bigode, Paulinho Cervantes, Quixote dos espaços, a galgar piruetas que só têm tradução na língua russa, tão dada à mais alta literatura e aos mais hirsutos palavrões. Bolshoi só quer dizer grande, e krasnyy, vermelho, sempre quis dizer krasivyy, bonito. Aprendi nos livros e nas esquinas de Moscou: os russos cultuam o sofrer, o cavalgam, cossacos, orgulhosos da posse de seu sofrimento. E de sofrimento têm falado nosso técnico, evocando filosofia quase budista. Enquanto o técnico bósnio da Sérvia, Mladen Krstaji, culpou o sofrimento pelas derrotas, “se você sofre, é punido”; Tite insiste, “é preciso saber sofrer”. E sofrer com discrição e pudor, que é o que se anda exigindo de Neymar. Onde será que ele aprendeu as artes da encenação? Ora, essa é a tradição, e não se trata de prosápia jabuticaba, boleiro faz fita no mundo todo. Mas o virtuosismo de Neymar pertence à estirpe brasileira. Como demonstra António Damásio, “sofrimento e prosperidade são sentimentos domiciliados na memória e, como tal, motivadores primordiais da inteligência criativa que produz cultura”. A vitória é uma lembrança, e habita a memória de quem não esquece o dia 15 de julho de 2018.

*PEDRO BIAL É JORNALISTA E APRESENTADOR DA REDE GLOBO

 

 

 

 

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