Nilton Fukuda/Estadão
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Robson Morelli
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Só o título poderia 'salvar' Neymar

Feito um 007 com licença para fazer o que bem entender, o atacante se enrolou em suas próprias atuações

Robson Morelli*, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 04h00

A frase foi dita mais de uma vez por mais de um membro da comissão técnica do Brasil, entre eles o técnico Tite, antes e depois da eliminação. “Vocês não sabem o que ele passou para chegar aqui”. Referia-se, claro, aos percalços que Neymar teve de enfrentar para disputar a Copa do Mundo da Rússia, não desde sua infância em Santos, mas nos últimos três meses, após contusão e cirurgia no pé direito.

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A frase serviu de desculpa para explicar tudo o que não deu certo no desempenho do jogador.

Na verdade, o Brasil todo sabia o que Neymar passou para chegar à competição. Todos os seus passos, ou cada passo dado por ele ou pelos que o assistiam, eram manchetes antes da disputa. O jogador foi tratado como nenhum outro.

Se Neymar espirrasse, perguntávamos ao médico Rodrigo Lasmar se ele estaria recuperado na Rússia. Se Neymar aparecesse em algum programa de tevê, queríamos saber se aquilo não poderia influenciar (negativamente) em sua recuperação. Se Neymar desse as caras em festas com os parceiros, ficávamos revoltados porque ele poderia sentir a lesão e não chegar inteiro ao torneio.

Até Neymar com sua namorada no colo, no Rio, que teoricamente não interessa a ninguém, somente ao casal, foi divulgado em material esportivo. Então, diferentemente do que Tite e todos na seleção achavam, inclusive alguns capitães do time, todos os brasileiros, mesmo os desavisados, sabiam sim o que Neymar passou para chegar à Copa. Cheguei a pegar um dia desses, mais perto do começo da competição, um menino na rua – não tinha mais do que 10 anos – falando com um amiguinho algo sobre um tal de quinto metatarso.

 

Ora. A corrida de Neymar contra o tempo não explica sua má atuação, tampouco as atuações teatrais que ganharam o mundo desde a Rússia, ridicularizando a todos nós. Vi in loco um Ronaldo Fenômeno suando a camisa, treinando em dois período, separado do grupo, sem desistir, para jogar a Copa do Mundo da Coreia e do Japão. Muito diferente do “mimimi” que se transformou a participação do melhor jogador do Brasil nesta disputa. Pior. Feito um 007 com licença para fazer o que bem entender, o atacante se enrolou em suas próprias atuações. Virou manchete negativa no mundo inteiro, bem longe do que imaginava para si antes de pisar em solo russo. Ao lado de Cristiano Ronaldo e Messi, Neymar era para ser protagonista. Os dois primeiros perderam como ele na bola, mas não tiveram a imagem arranhada. Neymar teve. E isso nada tem a ver com seus contratos milionários e jogador bem-sucedido financeiramente. Isso, Deus o ilumine, que continue sendo. Refiro-me ao fato de o jogador ter perdido carisma, entre os mais novos e os mais velhos, entre as pessoas que gostavam dele como atleta.

Sei que isso pouco importa para quem tem hoje 90 milhões de seguidores nas redes sociais e dinheiro para “comprar” o mundo. Mas não é isso mais que está em jogo. Neymar virou uma mentira, uma fake news. E só a conquista do hexa na Rússia poderia salvá-lo de suas próprias farsas. Como ela não veio, o que ficou foi tudo o que ele fez que condenaram. Neymar virou piada. Queria muito que não tivesse sido assim. Ele é brasileiro.

Em breve, vai retomar sua carreira em Paris ou em qualquer outro lugar, começará a fazer gols e jogadas que vamos aplaudir e novamente ter orgulho do seu futebol, como tínhamos antes da Copa. O futebol sempre permite recomeçar, sempre dá a seus protagonistas novas chances. E assim será. O futebol só não consegue apagar sua própria história. Felizmente. Porque temos mais alegrias do que tristezas, porque temos mais coisas boas para recordar do que decepções a serem esquecidas.

  

*EDITOR DE ESPORTE DO ‘ESTADÃO’

 

 

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