Fabrice Coffrini/France Presse
Fabrice Coffrini/France Presse

Del Nero desiste de ir à Suíça e vai perder reunião decisiva da Fifa

Para patrocinadores, Brasil 'deixou de existir' na gestão do futebol

Jamil Chade e Almir Leite, O Estado de S. Paulo

17 de julho de 2015 | 18h30

Uma das maiores federações de futebol, a CBF, não participará da definição do destino do futebol mundial e ficará de fora da elaboração do que promete ser uma nova Fifa. O presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, não viajará para Zurique para o encontro convocado pela Fifa para debater a reforma da entidade e sua eleição. 

Oficialmente, Del Nero explicou para a entidade máxima que a CPI do Futebol no Brasil o obrigava a permanecer no País. Mas, conforme o Estado revelou com exclusividade, o FBI o investiga por corrupção e não descarta uma prisão. Del Nero, portanto, optou por evitar a viagem para não correr riscos. 

Na segunda-feira, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, vai abrir um debate entre seus membros do Comitê Executivo para definir a data de uma nova eleição e quais reformas serão realizadas para limpar o futebol, no momento mais importante da história da entidade. No dia 27 de maio, a entidade foi tomada por um terremoto, depois que seus dirigentes foram presos em Zurique, entre eles José Maria Marin. 

Agora, o encontro era considerado pela Uefa e por vários dirigentes como "um dos mais decisivos nos mais de cem anos da Fifa". Nesse encontro, porém, o Brasil não terá nem voz e nem voto. Numa carta, Del Nero explicou à Fifa que a instalação da CPI, além da MP do Futebol, o obrigavam a permanecer no País. Segundo ele, esses dois assuntos impediriam sua saída, mesmo que por 24 horas. 

O Estado confirmou que, no hotel onde José Maria Marin foi preso, a reserva de Del Nero ainda existia até ontem. A administração do hotel Baur au Lac, em Zurique, confirmou que o presidente da CBF ficaria entre domingo e segunda-feira. Essa havia sido uma opção, permanecendo o mínimo necessário em Zurique. 

Num sinal da desordem interna que vive a CBF, a assessoria de imprensa não confirmava nem mesmo a carta que os dirigentes da Fifa haviam recebido da parte de Del Nero. Até o fechamento dessa edição, a posição oficial da entidade brasileira é de que não tinha condições de comentar se o presidente ia ou não à Zurique.

Mas a recusa em fazer a viagem deixou a Fifa irritada com o comportamento do brasileiro, que ainda ocupa cargos em comitês e criou uma saia-justa ao ser o único dirigente a abandonar o Congresso da entidade, há um mês. Ele também não viajou para a Copa América para acompanhar a seleção. 

Na Fifa, dirigentes que comandarão a reforma da entidade já deixaram claro que o Brasil "deixou de existir" na gestão do futebol desde a eclosão da crise. Um dos pontos fundamentais será a escolha de candidatos e, sem sua presença, Del Nero não poderá nem mesmo influenciar no processo. 

A CBF também ficará de fora dos debates sobre a nova composição do governo da Fifa e de sua reforma, o que significa que perderá espaço na nova entidade que será erguida ao final do processo. "O Brasil não terá uma posição de força na nova Fifa", admitiu um alto dirigente europeu. 

Um dos principais patrocinadores da Fifa, na condição de anonimato, também criticou a postura da CBF. Ao saber da informação, o executivo de uma empresa americana não escondeu a frustração. "O Brasil foi um dos pilares do futebol mundial por 50 anos e foram brasileiros que levaram o futebol pelo mundo. Agora, o Brasil é uma sombra do que foi", disse. 

INVESTIGAÇÃO

O Estado revelou há duas semanas que as autoridades suíças não descartavam pedir para ouvir Del Nero, caso ele pisasse em Zurique. Mas o maior risco para o brasileiro é ainda o FBI, que o investiga. A apuração nos EUA revelada com exclusividade pela reportagem se debruça sobre pagamentos feitos por José Hawilla, dono da Traffic. A Justiça aponta como o empresário brasileiro foi obrigado a compartilhar um contrato que tinha com a CBF para os direitos da Copa do Brasil com a Klefer a partir de 2011. As duas empresas ainda entraram em acordo para dividir o pagamento de uma propina entre Del Nero e Marin . 

"Hawilla concordou em pagar metade do custo da propina, que totalizava R$ 2 milhões por ano, para ser dividido entre Co-Conspirator #13, Co-Conspirator #15, e Co-Conspirator #16 ", indicou o indiciamento do empresário. Eles seriam Ricardo Teixeira, Del Nero e Marin. 

O mesmo caso é contado no documento que serve de base para o indiciamento de Marin e, neste caso, o nome do ex-presidente da CBF é apresentado. No indiciamento, a Justiça traz até mesmo um diálogo entre Marin e Hawilla, em que o cartola insiste que o dinheiro precisa ir para ele também. A reunião gravada ocorreu nos EUA em abril de 2014.

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