Ivan Fernandez/AP
Ivan Fernandez/AP

Torcida do River festeja e 'excluídos' entram em choque com polícia

Estádio, que recebeu 67 mil pessoas, estava isolado por barreiras

RODRIGO CAVALHEIRO, Estadão Conteúdo

06 Agosto 2015 | 08h42

Teve sua dose de raiva a alegria que os torcedores do River Plate demonstraram na madrugada desta quinta-feira, após o time vencer o Tigres por 3 a 0 e conquistar a Libertadores sob um temporal que alagou Buenos Aires. Foram 19 anos sem levantar a competição de clubes mais importante da América do Sul - conquistada também pela tradicional equipe em 1986 e 1996. Mas, principalmente, foram 1.482 dias desde que o time, o mais popular da Argentina ao lado do Boca Juniors, caiu para a segunda divisão. Nenhuma equipe saiu tão rápido do descenso para o topo do continente.

A ansiedade por chegar de novo ao título, que dependia de uma vitória simples contra os mexicanos (o primeiro jogo terminou em 0 a 0), ficou clara antes de o jogo começar, às 22 horas de quarta-feira. Uma garoa leve começou a cair quando o uruguaio Darío Ubriaco deu início à partida e mais de mil torcedores ficaram fora do Monumental de Nuñez, com 67 mil lugares ocupados. Cambistas ainda ofereciam ingressos por preços entre 1 mil pesos (R$ 378) e 2 mil pesos (R$ 575) quando a polícia bloqueou o acesso ao estádio.

Quem estava nos arredores do estádio sabia que já não entraria, mas ficou ali mesmo, apenas para torcer do lado de fora. Rodrigo Ibañez, de 34 anos, pagou 1 mil pesos para ele e 1 mil para a mulher, mas não entrou. "Comprei tarde, de um cambista conhecido, quando a polícia já tinha bloqueado o acesso ao estádio", explicou o operário de uma gráfica de Pilar, na região metropolitana, que estava com a namorada, Silvia Sanchez.

Aos 10 minutos, dezenas de torcedores que queriam se aproximar do estádio - isolado por anéis de barreira metálica onde são feitas as revistas - enfrentaram a tropa de choque atirando garrafas de cerveja. Os policiais responderam avançando lado a lado e usando spray de pimenta. "Depois de quebrar tudo aqui, vão destruir perto do Obelisco, na celebração do título. A sociedade argentina está assim", disse Ibañez.

Embora alguns carros estacionados tenham sido quebrados e um torcedor tentasse roubar uma moto com um cadeado na roda traseira arrastando-a, a ação policial deu certo. A multidão se dispersou em pequenos grupos que continuaram no entorno do estádio, sem procurar uma televisão para assistir ao jogo. O ponto de atração era quem tivesse um rádio de pilha.

Eventualmente, os grupos saltavam gritando contra os rivais do Boca, que eliminaram nas oitavas de final, em um confronto interrompido no intervalo do segundo jogo, em La Bombonera, porque torcedores locais jogaram gás de pimenta nos jogadores adversários. Esse foi um dos momentos de dificuldade que tornaram a campanha especial para a torcida, à parte do difícil histórico recente. Na primeira fase, o River terminou com o pior desempenho entre os 16 que passaram a fase de grupos. Conseguiu ir às oitavas de final graças ao Tigres, que venceu seu último jogo contra os peruanos do Juan Aurich quando já estava classificado.

Nas quartas de final, o time argentino eliminou o Cruzeiro, depois de perder por 1 a 0 em casa. Ganhou por 3 a 0 no Mineirão. Na semifinal, bateu o paraguaio Guaraní. Com o título, Marcelo Gallardo tornou-se campeão como jogador (1996) e treinador.

A final contra o Tigres começou a ser resolvida aos 44 minutos, quando Lucas Alario marcou de cabeça, após cruzamento de Vangioni pela esquerda. Até ali, a equipe argentina não tinha ameaçado o goleiro Guzmán. O grito dos torcedores que viram ao vivo o lance demorou segundos para chegar ao grupo estava do lado de fora.

Embora os "excluídos" já tivessem ouvido o gol no rádio, não tinham a confirmação vinda do Monumental. Nova celebração, dentro e fora do estádio, ocorreu aos 27 minutos do segundo tempo, quando o mexicano Aquino cometeu pênalti sobre o volante uruguaio Carlos Sánchez. Logo depois de cair, ele agarrou a bola instintivamente e "driblou" o companheiro Cavenaghi, que pedia para bater. Bateu no alto e fez 2 a 0. O defensor Funes Mori, de cabeça, após escanteio da direita, fez o terceiro e último aos 33 minutos.

TEMPORAL

A esta altura, a garoa tinha se transformado em um temporal, que permaneceu constante por toda a noite. Até as 3 horas, a previsão de violência de Ibañez, o torcedor que com ingressos não pôde entrar no estádio, não havia se concretizado. Milhares de fanáticos tremulavam bandeiras de cores vermelha, negra e branca, misturadas a guarda-chuvas a esta altura inúteis. Não havia um river-platense seco sob o Obelisco, o ponto turístico de 67 metros na Avenida 9 de Julho onde tradicionalmente os títulos são celebrados na capital argentina.

A maior parte da multidão chegava em ônibus. Num deles, da linha 60, o trajeto de 40 minutos entre o estádio e o monumento transcorreu sem depredações, mas também sem que ninguém pagasse passagem. A maior parte dos cânticos era ritmada com batidas no teto e na lataria, em geral com provocação aos "bosteros", como os rivais do Boca são depreciativamente chamados. Ao desembarcar, embora alguns subissem em semáforos e os balançassem, não houve quebra significativa de patrimônio público como costuma ocorrer nessas celebrações. Com a principal avenida da cidade inundada, uma diversão era dar peixinhos na parte mais profunda da via, onde a água chegava à canela.

Entre as bandeiras do clube, apareciam algumas do Japão, para onde a equipe embarcou às 5 horas (de Brasília) desta quinta-feira para disputar a Copa Suruga. O jogo no dia 11 envolve o campeão da última Sul-Americana, o River, e o da Copa J. League, o Gamba Osaka. Em dezembro, o River volta ao país asiático para o Mundial de Clubes, para o qual já estão classificados América (México), Auckland City (Nova Zelândia) e Barcelona (Espanha), contra quem os argentinos sonham fazer a final. Em 1986, o time venceu o Steaua Bucareste por 1 a 0.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.