Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 17h00

Em um terreno onde os homens imperavam até pouco tempo, meninas entre 9 e 17 anos correm atrás da bola com graça e naturalidade. O sonha delas não difere dos meninos que se espelham em craques masculinos. Elas querem ser uma nova Marta, Cristiane ou Bia. Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo também são lembrados, mas em segundo plano, pois quem realmente as inspiram são as jogadoras que fizeram o futebol feminino ser respeitado no Brasil. Marta, por exemplo, foi cinco vezes a melhor do mundo em escolha da Fifa. Mostrou o caminho para essas novas gerações.

Ainda falta muito para o devido reconhecimento, mas essa geração que nunca desistiu fez com que uma nova safra brotasse nos campos do País. O cenário ganhou um alento, dado pela Conmebol, que ofereceu duas vagas para o Brasil na Libertadores com a incumbência de os clubes apostarem em times femininos a partir da temporada de 2019.

Se mão de obra não falta, o mesmo não se pode dizer dos investimentos. A base do futebol feminino passa por dificuldades maiores do que as equipes adultas. Quase não existem. “A nova geração é mais forte técnica e fisicamente, pois as meninas são mais bem preparadas”, disse Julia Vergueiro, proprietária da escolinha Pelado Real, exclusiva para as meninas. A escolinha cobra mensalidade de cerca de R$ 100.

A visibilidade da modalidade na Olimpíada do Rio aumentou a procura pelo esporte. “As peneiras tinham, em média, 70 atletas. Nas últimas três, foram cerca de 150”, comemora Jonas Urias, técnico do time principal do Centro Olímpico do Ibirapuera, um dos clubes da cidade referência na categoria tanto na base quanto na formação adulta. 

Como existem poucas competições de base, muitas vezes as garotas são obrigadas a jogar contra meninos. Para ter um equilíbrio físico, é permito que elas enfrentem uma categoria inferior e, mesmo assim, o time masculino geralmente leva vantagem. Mas recentemente, o time do Centro Olímpico surpreendeu com a formação Sub-15 e foi campeão da Copa Moleque Travesso enfrentando garotos do Sub-13. Na final, derrotou os meninos do São Paulo por 3 a 0. 

A equipe, que conta com o apoio da Prefeitura de São Paulo, tinha também o patrocínio de um hospital, mas o acordo foi encerrado e a preocupação no clube agora é grande. Outras agremiações, como o Juventus, da Mooca, sofrem com o mesmo problema: a falta de dinheiro e parceiros no negócio. 

“Material humano existe e é bom. O que falta é organização e investimento. Mas parece que a Federação Paulista está mais interessada agora”, diz Marcelo Okidoi, diretor do futebol feminino do Juventus. 

Uma das responsáveis por fazer os clubes apostarem na modalidade é a ex-jogadora Aline Pellegrino, que assumiu o departamento de futebol feminino da FPF em setembro. “A Fifa mudou algumas determinações e agora existe a Copa do Mundo Sub-17, vai ter a Sub-20 e a entidade tem dado mais atenção à isso. Enfrentamos dificuldades, pois há poucas federações que têm categoria principal. Na base então, é bem pior”, comentou a dirigente. 

Aline tem feito diversas reuniões com dirigentes de clubes paulistas. Os times tradicionais do estado, por enquanto, não demonstram empolgação com a modalidade por entender que é um gasto sem retorno e de pouca visibilidade. Palmeiras e São Paulo não possuem times. O Corinthians firmou parceria com o Osasco Audax e o Santos tem apenas a equipe principal.

“Desde 1991, temos um time feminino e isso virou algo tradicional para nós. Só que a lei da modernização da gestão fala em obrigação do futebol feminino com o apoio do governo, mas não vi esse dinheiro ainda”, reclamou o presidente santista, Modesto Roma.

As equipes femininas, como a do Centro Olímpico, tentam apoio nos grandes clubes de São Paulo. Entendem que se eles entrarem no jogo, a modalidade cresce. Aline Pellegrino acredita que as mulheres só serão realmente respeitadas no futebol se elas tiverem vida própria, sem pegar carona no sucesso masculino. “Não precisamos deles. Futebol masculino tem sua história. O feminino precisa cuidar da dele. Se um desses times grandes não tiver interesse em participar de um campeonato, tudo bem, a gente faz com quem quer jogar”, explicou. 

Embora estejam cientes da dificuldade da profissão, essas meninas que correm atrás da bola não olham o esporte apenas como um entretenimento, mas com a possibilidade de ter uma vida melhor. Por isso, festejaram a recente decisão da Conmebol sobre a obrigatoriedade da formação das equipes. Mas houve quem não concordou com a iniciativa. “Futebol não se faz por decreto. Monta o time quem quiser”, comentou o presidente santista Modesto Roma Júnior. Para Rodrigo Coelho, técnico do Sub-15 do Centro Olímpico de São Paulo, a decisão pode sim ajudar a modalidade a crescer. “Torcemos para que a Conmebol mantenha essa postura. Enquanto não tiver apoio dos clubes de tradição e das grandes entidades, o crescimento do futebol feminino no Brasil será pequeno”, analisou.

Para Aline, as meninas precisam se reorganizar antes de buscar investidores. “Você tem de saber vender um produto para atrair a atenção dos outros, dos investidores. Não adianta ir atrás das empresas como coitadinho. Tem de mostrar a nossa qualidade antes e criar uma marca forte”, comentou.

Preconceito. Uma pedra no caminho para essa evolução e crescimento dos investimentos ainda está ligada ao preconceito que se tem de ver meninas correndo atrás da bola no Brasil. É normal, durante as competições mistas, ouvir pais e amigos de atletas (meninos) fazendo comentários maldosos contra as adversárias.

“Uma vez, uma atleta nossa saiu chorando de campo por ouvir coisas chatas quando foi bater um lateral. Estava próxima ao alambrado. Só que o rival preconceituoso esquece que no time dele também tem mulher”, diz Jonas.

Apesar das reclamações e de anos de abandono, a esperança de dias melhores no futebol feminino é maior do que o medo de ver tanto talento desperdiçados por falta de oportunidades.

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Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 16h59

Ser jogadora de futebol no Brasil não é fácil, ainda mais para garotas na adolescência. Além do preconceito, precisam lidar também com muitos meninos que se irritam por ver alguém do pseudo “sexo frágil” jogando mais do que eles. 

É comum ouvir de meninas habilidosas histórias em que elas levaram pancadas ou foram xingadas por garotos após um drible desconcertante. “Tem uns meninos que ficam bravo mesmo, que xingam, mandam você ir lavar louça ou brincar de boneca”, conta Vitória, de 14 anos, que defende o Centro Olímpico do Ibirapuera. “Antes, nem deixavam eu jogar, mas entrava na partida assim mesmo, atrapalhava todo mundo, fazia escândalo. Então eram obrigados a me deixar participar”, lembra, rindo, a zagueira, lateral e volante. 

Companheira de Vitória, Giovana, de 13 anos, ainda tenta tirar os meninos do sério. “O que eu mais gosto é de dar caneta. Os moleques ficam bravos comigo e dou risada”, diz. Ela conta ainda que já foi xingada até por pais de meninos. “Durante os campeonatos, falam muitas bobagens. É o tempo todo.”

Com personalidade, muitas garotas conseguem superar o preconceito e acabam revertendo a situação. É o caso da volante Cris, de 13 anos também, que diz ter a fama de ser a craque de sua sala na escola. “Na hora de escolher o time, sempre sou uma das primeiras e o pessoal comenta que sou melhor do que qualquer menino da sala”, provoca.

A rivalidade entre os sexos acaba sendo mais comum entre os 13 e os 17 anos, segundo professores e técnicos das escolas. Para alguns meninos, perder a disputa para uma garota é motivo de vergonha. “Sempre que dou um drible, não me batem, mas os meninos ficam tirando sarro de quem foi driblado”, conta a atacante Sabrina, de 14 anos. 

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Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 16h59

Um dos desafios das meninas que querem jogar futebol é achar locais com estrutura e times onde possam atuar. A jovem Sofia, de 11 anos, por exemplo, faz com que seu pai, Márcio, enfrente cerca de 150 quilômetros de estrada duas vezes por semana para treinar no Centro Olímpico do Ibirapuera. 

A família é de Atibaia, interior de São Paulo, e a capital foi o local mais perto que eles encontraram para treinar. “Não existem muitas opções no interior. Cheguei a ver em São José, mas acabei conseguindo trazê-la para fazer testes em São Paulo e ela passou”, contou o pai, que é advogado autônomo. 

Márcio e Sofia não são os únicos nessa condição. Existem garotas que saem de Cosmópolis, Salto, e de outras cidades do interior de São Paulo, para a mesma tarefa: jogar futebol. Existem algumas escolinhas de futebol, mas poucos clubes com boa estrutura. 

É comum em treinos das mais novas – até 11 anos –, ver parentes acompanhando a atividade, mas com uma regra: não podem interferir. Gritos ou qualquer ação são proibidos. Julia Vergueiro, dona de uma escolinha de futebol feminino, diz que é mais comum ver mães e filhas. “A gente sente que muitos pais ainda têm resistência”. 

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