Reprodução/ FGFTV
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Sobre agressões covardes, masculinidade e a autodestruição dos homens

Chute do meia Willian Ribeiro na cabeça do árbitro Rodrigo Crivellaro é o sintoma de uma sociedade que não discute sua violência estrutural e que, pior ainda, replica esse padrão no esporte

João Abel, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2021 | 15h22

No futebol, é difícil encontrar unanimidades. Mas o chute de Willian Ribeiro, jogador do Rio Grande, na cabeça do árbitro Rodrigo Crivellaro, durante partida da segunda divisão do Campeonato Gaúcho, foi condenado de maneira unânime. Muitos usaram o mesmo adjetivo para classificar a atitude do atleta: covarde.

Por mais contraditório que possa parecer, é preciso muita coragem para cometer um ato tão grande de covardia contra outra pessoa. Infelizmente casos de violência não são incomuns no futebol e por muitas vezes são inclusive aceitos. ‘Fazem parte da cultura’, dizem alguns. Willian, no entanto, parece ter ultrapassado todos os limites ao deixar Crivellaro desacordado.

Passado o pontapé, o árbitro está em recuperação com um colar cervical após uma lesão na medula. O jogador recebeu liberdade provisória da Justiça e teve contrato rescindido com seu clube.

E este é o resumo do caso até o momento.

Até que o próximo episódio de violência, no futebol ou fora dele, aconteça sem que a gente tenha discutido o que realmente gera esse tipo de absurdo.

A agressão do meio-campista não é um ato isolado na carreira dele. Willian já deu um soco em um atleta do Pelotas há sete anos e também atacou fisicamente um torcedor em partida disputada este ano contra a Lajeadense.

Mas também não é um caso isolado no Brasil. O chute na nuca do árbitro é a ponta do iceberg de uma sociedade que se acostumou a assistir a crimes bárbaros em programas policiais. De um país que teve 21 mil mortes violentas só no primeiro semestre de 2021. E onde os homens precisam a todo momento autoafirmar sua masculinidade.

A forma como construímos historicamente a figura masculino está levando os homens à sua própria destruição. A criação de um padrão masculino, que precisa ser replicado e respeitado ao longo das gerações, tem criado covardes como Willian.

E é um problema estrutural. Não é de determinados núcleos familiares ou algo individual. Está no inconsciente coletivo e com reflexos nas esferas de poder desde que o Brasil é Brasil.

Gosto sempre de citar o exemplo de Caetano Veloso. No documentário Narciso em Férias (Globoplay, 2020), o cantor se depara pela primeira vez com um relatório que os militares fizeram sobre ele durante um interrogatório no período de sua prisão, entre dezembro de 1968 e fevereiro de 1969. E no documento, o regime classifica a arte de Caetano com dois atributos: subversiva e desvirilizante.

Este último chama bastante atenção. Trocando em miúdos, os militares achavam que a arte do compositor baiano de Santo Amaro era imprópria porque ‘tirava a virilidade’. Caetano não era ‘homem suficiente’. Expressão que nós, homens, ouvimos tantas vezes ao longo da vida.

"Ah, mas isso ocorreu em um período de ditadura. Hoje em dia, isso jamais aconteceria". Tem certeza? O atual presidente da República já disse que vivemos num ‘país de maricas’. Como se ser ‘marica’ fosse um crime. E um crime tão ou mais grave do que a agressão do jogador do Rio Grande.

E o ministério da Cultura, aliás, secretaria da Cultura, bem que assinaria um relatório como este que os militares assinaram sobre Caetano há mais de meio século.

E que diabos tudo isso tem a ver com futebol? Tudo.

Essa concepção tóxica de masculinidade, que está entranhada desde o mais baixo estrato social, onde a criminalidade e a violência imperam, até o poder público, onde as mulheres são gritante minoria, não deixaria de se impor no esporte mais popular do País. Uma modalidade em que, de 10 praticantes, nove são do sexo masculino.

O futebol é um ambiente onde tudo isso é potencializado e qualquer passo fora da virilidade é um tabu. Masculinidade que se mostra nos casos de violência em campo, ou de assédio fora dele. Que o diga o próprio presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo.

Em 2019, uma pesquisa feita com apoio da ONU Mulheres mostrou que sete em cada dez homens dizem que foram ensinados na infância e na adolescência a não demonstrar fragilidade. E este mesmo índice de homens lida com algum distúrbio emocional

É claro que precisamos falar sobre desigualdade econômica, social, falta de acesso à educação básica e inúmeros problemas que também implicam no cenário de violência. Mas enquanto não falarmos sobre a raiz da masculinidade, vamos replicar esse padrão violento por várias e várias gerações.

Willian não é uma vítima e vai pagar perante à Justiça, por lesão corporal ou até tentativa de homicídio por motivo fútil. Mas ele é também o resultado social de uma estrutura permissível e, até certo ponto, incentivadora desses comportamentos.

Quando homens apoiarem homens e quebrarem esse tipo de padrão, vamos começar a deixar para trás a atual relação em que todos perdem. E aí vamos passar a ganhar. Do contrário, seguimos uma rota firme no sentido da autodestruição.


*João Abel é editor do Drops, no Instagram do Estadão, autor de ‘Bicha’ e coautor de ‘O Contra-Ataque’. Escreve semanalmente.

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