Iara Morselli/Estadão
Iara Morselli/Estadão

Sobre imunidade e futebol

Penso no futebol como penso na política interna do Butão: existe, tem importância para quem está envolvido nela, mas meu interesse é baixo

Leandro Karnal, colunista

12 Junho 2018 | 04h00

Sou a pessoa menos gabaritada para pensar no imenso evento que começa daqui a pouco. A noção de Nelson Rodrigues da pátria de chuteiras comoverá quase todos os 210 milhões de brasileiros. Em meio a tantas mazelas nacionais, a esperança de uma vitória na Copa é um Santo Graal luminoso. Sou pouco indicado, pois pertenço a uma pequena minoria daqueles que não acompanharão nenhum jogo. Não é nenhuma postura política ou de consciência crítica. Não sou avesso aos jogos por convicção ideológica ou por compartilhar da ideia do futebol como ópio. Livros podem ser ópio e religiões podem encarnar um anestésico social. Hoje, eu diria, que ser ópio é até uma virtude, pois a realidade está no limiar do insuportável. Não tenho militância contra futebol e vejo no esporte uma forma elaborada de paixão e uma justa ocupação da alma do torcedor. Nada tenho contra e, igualmente, nada a favor.

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Na final da Copa de 1994 (EUA), estava em Bariloche. Descobri agora, na internet, que o jogo foi contra a Itália. Supus que a melhor atividade seria... esquiar. Previ e acertei: o Cerro Catedral estava vazio, uma maravilha que eu nunca tinha visto. Voltei ao hotel e os brasileiros estavam eufóricos no saguão. Cumprimentei alguns na sua contagiante alegria. Fui dormir cansado e feliz. Quando os jogos da Copa ocorrem e estou em São Paulo, vou correr no Ibirapuera. Não há sequer ladrões lá, apenas um punhado de gatos pingados, quase todos estrangeiros. É um momento de felicidade: torcedores torcendo e eu correndo.

“Leandro, você odeia futebol?” De forma alguma! Talvez seja a indiferença aquariana, porém, para isso ser verdade, teria de me importar com astrologia. Penso no futebol como penso na política interna do Butão: existe, tem importância para quem está envolvido nela, mas meu interesse é baixo. Tenho dificuldade em projetar em pessoas que eu nunca vi, que nunca verei, que não sabem da minha existência e que jamais pensariam em mim um poder de serem meus representantes altivos. Morrerei sem nunca ter encontrado Neymar Jr.. Desejo sucesso a alguém talentoso como ele. Como brasileiro, sinto simpatia com uma vitória brasileira, não a ponto de chegar a ver um jogo. 

Acho compreensível o rito antropológico da união, da identidade exuberante, dos corações entrelaçados em um raro momento de foco patriótico. Ainda assim, vejo a solenidade ritual do momento com claro afastamento. Joguei futebol na infância e adolescência. Para sorte do jogo, não continuei. Meu primeiro evento da área foi ver o time da minha cidade, o Aimoré de São Leopoldo, no estádio local levado pelas mãos do meu pai. Até hoje tenho carinho imenso pelo time e pelas memórias do meu pai. Tenho camiseta do Aimoré. Vi outro jogo no Pacaembu e analisei, interessado, a voz tonitruante da massa e o peso do pertencimento coletivo. Foi o segundo jogo da minha vida, em 1987. Até hoje, o último.

 

Falta-me a capacidade de incorporar a paixão ao momento. Pense em mim como você acompanhando a final do torneio de sumô no Japão ou de críquete no Paquistão. Você odeia críquete? Não. Moveria muita coisa pelos esportes citados? Creio que não. Amo meu país, amo ser brasileiro, sinto-me feliz quando meus compatriotas estão felizes e, novamente, irei correr no Ibirapuera. Síndrome do Alienista de Machado de Assis; será a torcida insana ou serei eu o perturbado? Que vença o Brasil e que eu consiga correr mais agora do que há 4 anos. Vai, Brasil!!!

*LEANDRO KARNAL É COLUNISTA DO ESTADÃO

 

 

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