Sobrinho de Blatter ganha contrato milionário da Copa

Empresa perde licitação na Fifa, mas mesmo assim ganha o direito de vender pacotes de turismo e ingressos para o Mundial de 2018

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2014 | 05h00

Documentos exclusivos obtidos pelo Estado revelam que a empresa Byrom concorria em 2012 contra a Kuoni, uma gigante do setor do turismo mundial. Em doze páginas de avaliação da licitação, os técnicos da Fifa chegaram à conclusão que a Byrom não estava capacitada para realizar as vendas de pacotes para a Copa de 2018 e que o modelo comercial não conseguiria sequer cobrir os custos. Mesmo assim, a empresa ficou com o contrato.

Segundo o informe, o modelo comercial da Byrom "não é provavelmente viável" e é "financeiramente duvidável".

A Byrom é a empresa administrada pelos irmãos mexicanos Enrique e Jaime Byrom. Ela atuou, em outros Mundiais, ao lado da Match, empresa que tem como seu CEO Philippe Blatter, sobrinho de Joseph Blatter, em outros serviços prestados para a Fifa. No Brasil, em julho, a Polícia do Rio de Janeiro emitiu uma ordem de prisão contra um dos funcionários da empresa por suspeita de envolvimento na venda ilegal de ingressos. Os irmãos Byrom rejeitam a acusação.

Há uma semana, em Zurique, o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, confirmou que a Byrom seria mantida para a Copa de 2018, na Rússia no que se refere ao setor de ingressos. "O trabalho feito pela Match administrando nossa operação de ingressos tem sido ótima", disse. "Quando você trabalha com alguém que fez isso, enquanto não houver um caso ou julgamento, então não há razão para não trabalhar com uma empresa que tem feito um trabalho tão bom", afirmou. "Não existe motivo para não estender o acordo baseado em aspectos comerciais e financeiros, como confirmou o Comitê Financeiro e o Comitê Executivo (da Fifa)", completou Valcke.

O problema é que os documentos oficiais da licitação da Fifa revelam uma conclusão radicalmente oposta às declarações de Valcke.

Num informe de 22 de novembro de 2012, a Fifa aponta que a Byrom e a Kuoni foram selecionadas como finalistas na licitação para ficar com os contratos de 2018.

Em todos os critérios estabelecidos pela Fifa, a Byrom foi derrotada de forma clara pela Kuoni. No que se refere ao perfil das empresas, a Kuoni somou 16 pontos, contra apenas 8 da Byrom. O item avaliava a estrutura da empresa, a estabilidade financeira e sua experiência no mercado russo.

A constatação da Fifa foi que a Byrom tinha "ativos financeiros limitados", enquanto a Kuoni tinha uma "forte receita". O informe apontou que a Byrom "não tem experiência na Rússia", enquanto a concorrente sim.

No critério sobre a oferta de ambas as empresas, uma vez mais a vencedora foi a Kuoni, com 20 pontos, contra apenas 11 somados pela Byrom. O documento chega a indicar que vendas previstas de US$ 200 milhões não seriam suficientes para cobrir eventuais riscos.

No terceiro e último critério, sobre os riscos financeiros, a diferença foi ainda maior. A Kuoni recebeu 15 pontos, contra apenas 3 para a Byrom. O documento chega a alertar que, no caso da empresa do sobrinho de Blatter, "a viabilidade comercial era duvidosa".

No total, portanto, a Kuoni somou 51 pontos, contra apenas 22 da Byrom, que acabou ficando com o contrato.

O documento termina com uma declaração inequívoca. "Recomendação: selecionar a Kuoni". "A oferta da Kuoni parece mais profissional, viável e confiável e está baseada em um modelo de parcerias locais", indicou a Fifa.

A entidade também alerta que, no caso de Byrom, a Fifa continua "totalmente exposta" em caso de uma turbulência e que teria de garantir um financiamento de US$ 50 milhões para que a empresa possa realizar seu trabalho. No caso da Kuoni, nenhum aporte da Fifa seria necessário. Mas nada disso foi suficiente para romper a aliança entre tio e sobrinho.

Resposta – Em resposta, a Fifa informou que as duas ofertas eram "muito parecidas". "Dado que as duas ofertas finais eram muito próximas uma da outra, foi decidido que, para manter a continuidade, a Byrom seria a escolhida, com sua vasta experiência em grandes eventos esportivos, como o provedor de serviços de acomodação para a Copa de 2018", indicou a Fifa em um e-mail à reportagem.

A versão da Fifa contradiz com o documento interno, que aponta que a Kuoni somou uma pontuação duas vezes superior à Byrom. A Fifa ainda explicou que o sobrinho de Blatter não tem qualquer relação com o atual contrato da Byrom sobre o Mundial de 2018.

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