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Sociedade derrotada

A praga da torcida única chega ao Rio. Assim, o Estado admite impotência contra a violência

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2017 | 03h00

A torcida única é praga que se dissemina no Brasil. A erva daninha atingiu o Rio Grande do Sul, visitou Minas Gerais, instalou-se em São Paulo e agora passará temporada no Rio. A Justiça carioca impôs que, nos clássicos estaduais, compareça apenas o público do mandante. A justificativa não difere dos casos anteriores: a saída para evitar confrontos entre hostes adversárias e, assim, diminuir o número de episódios que resultam em depredações, feridos e mortes. 

Trata-se de saída simplista, inócua, a solução que não resolve nada, a sujeira empurrada para baixo do tapete. Na aparência, se combate a ação dos maus elementos, procura mandar para longe aqueles que não vão a estádios para torcer, mas para provocar tumultos, etc e tal. A ladainha que há décadas se ouve por aqui, ad nauseam.

Há, no mínimo, ingenuidade na decisão, para não falar em desconhecimento de causa. As rixas até ocorrem nas arquibancadas, porém são cada vez mais esporádicas. O problema se diluiu pelos arredores dos campos e, sobretudo, em terminais de ônibus, trens, metrôs, muitas vezes em periferia e a quilômetros de distância do local das partidas. Muitas brigas são combinadas pelas redes sociais. 

Mais do que isso: independem da determinação de "torcida única". Aqueles que querem treta arrumam jeito de encontrá-la, e ir às arenas não passa de detalhe. Aliás, o futebol é detalhe para quem busca qualquer motivo para agressões. E o Estado, ao optar por esta alternativa preguiçosa, passa recibo de impotência, de incompetência. O recado, evidente: o poder público não tem como garantir segurança de quem só busca diversão no joguinho de bola.

A abordagem do problema precisa passar por revisão, carece de nova óptica. Abordei o tema na crônica do meio da semana e o retomo em parte. As ciladas, as emboscadas, as vinganças, as mortes aparentemente por causa de futebol são reflexo da violência de nossa sociedade. O Brasil transformou-se em país (mais) violento, em que assassinatos por motivos banais estão na base de grande parte dos crimes do gênero. Repito número colocado aqui na quarta-feira: 58.383 patrícios nossos morreram em 2015 de forma violenta.

O desprezo pela vida não aparece como fenômeno cultural, religioso ou político. Vivemos um caso de epidemia, e que deveria ser tratado como doença. Da mesma maneira que a corrupção. As duas coisas são endêmicas. E, de tão repetitivas, soam como atos banais, inevitáveis. São casos de saúde pública, que requerem esforço, tratamento intenso e ininterrupto. Para ficarem sob controle em alguns anos. Não adianta só recorrer para a força bruta, só para polícia, julgamentos, cadeias. O Brasil precisa de transformação na maneira desdenha da enorme riqueza que é a vida. O futebol (e as torcidas) compõe essa realidade; desperdício de energia considerá-lo entidade à parte.

Vida dura. Em algum momento deve ter passado pela cabeça de Eduardo Baptista que iria enfrentar turbulência no Palmeiras. Embora seja jovem na profissão de treinador, não chegou ontem ao futebol. No mínimo, tem as experiências e histórias vividas pelo pai, Nelsinho, lateral dos bons e técnico há muito tempo. Deve ter trocada ideias com ele. 

Mas talvez não tenha imaginado o grau da impaciência do palmeirense. Pois eis que, em três rodadas do Paulista, se depara com vaias, gritos de "volta Cuca!" e desconfiança sobre capacidade de administrar elenco forte e que desperta expectativa tremenda entre seus seguidores.

O novo teste será em Araraquara. Mas um dos mais importantes está marcado para quarta-feira, no clássico com o Corinthians. Se passar pelo rival, ganhará trégua e fôlego. No entanto, só terá vida fácil se enfileirar vitórias e boas apresentações. 

O que ainda não ocorreu.

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