Sócrates comemora 50 anos

O aniversário será na quinta-feira, mas a festa dos 50 anos de Sócrates Brasileiro Sampaio Vieira de Oliveira, o dr. Sócrates, começou bem antes. Na sexta-feira começaram a chegar os amigos a Ribeirão Preto. Havia um bom motivo. Sócrates cantaria na reinauguração do Bristol, antigo cinema da cidade. Um projeto que teve sua participação, juntamente com o pessoal da Cauim, uma ONG cultural.Sócrates cantor? E por que não? O jogador iniciante que usou o calcanhar para driblar sua falta de condicionamento físico; o craque que levou mensagens políticas ao Mundial de 1982; o cidadão que jogou todo seu prestígio de atleta na luta pela redemocratização do País nunca se colocou limites. Faz o que acha que deve fazer. E o que pode fazer."Sou um homem de paixões. Me dedico de cabeça ao que estou amando. Em tudo, até na vida pessoal. Eu adoro casar, viver junto. Se amo uma pessoa, quero estar ao lado dela", diz aquele que foi o mais controvertido de todos os craques brasileiros. E para provar a veracidade das palavras, conta que está no quarto casamento. Tem cinco filhos dos anteriores - Rodrigo, Eduardo, Marcelo, Gustavo e Júnior -, o mais velho com 28 anos e o mais novo com apenas 13.Família é algo importante para esse Sócrates que sempre sonhou com transformações, com revoluções. Contraditório? Não para ele, que sempre foi muitos e não um só. "Sou muito gregário, gosto de ficar no meu canto com a mulher que eu amo. Meu sonho é educar meus filhos, já tenho dois bem encaminhados. Depois vou para a praia, ficar sem fazer nada."Aos 50, Sócrates não quer fazer retrospectivas, análises, pensar no que errou e acertou na carreira iniciada no Botafogo de Ribeirão (1974/78), quando estudou Medicina, e que continuou no Corinthians (1978 a 1984) - onde foi três vezes campeão paulista, na Fiorentina (1984/85), no Flamengo (1985/87) - campeão carioca em 1986 -, no Santos (1988) e que se encerrou no mesmo Botafogo (1989).Quer mesmo a farra com os colegas, o trio elétrico que saiu no sábado em sua homenagem, mas quando começa a contar a história de sua carreira, o que se vê é alguém que sempre exerceu na plenitude a busca da felicidade. Por isso, voltou de Florença, que diz ter amado. "Não consigo viver longe desse País. O meu estilo de vida é muito diferente da burocracia da Itália e por isso foi tão triste jogar na Fiorentina. Foi bonito, aprendi muito naquele ano, mas queria voltar."Ele desmente que foi chamado de "bufoni" (fanfarrão) pela torcida. "Não foi isso o que aconteceu. Uma vez os jornais inventaram que eu havia chamado os italianos de "bufoni" e não conseguia desmentir. Na Itália é assim. Se os jornais publicam, você não consegue refutar. Eu até joguei bem lá, mas havia dois grupos de jogadores, um odiando o outro. Não daria certo mesmo."Foi então que recebeu um estranho telefonema. "Era o Luciano do Valle. Ele disse que tomaria conta do futebol da Ponte Preta e que me pagaria o mesmo que eu ganhava na Itália. Falei que estava louco, eu ganhava 80 mil dólares por mês. Fizemos um acerto. Disse que se ele me garantisse 200 mil dólares por ano eu voltava. Ele deu a palavra e não tinha dinheiro nenhum. Fui para o Flamengo jogar com o Zico."Não deu certo. "Eu e ele já estávamos no fim. A gente vivia contundido. Em um ano e meio, fizemos um jogo só juntos. Foi uma pena muito grande. Queria que tivesse dado certo. A gente ia se divertir muito."E antes de tudo isso houve a Democracia Corintiana, o movimento que ele liderou em 82 e 83 e que abalou muito do conservadorismo do futebol. "Aquilo foi um tumor de democracia no meio de um sistema reacionário. Fomos revolucionários, nunca houve nada igual. É moderno até hoje, quando já se passaram mais de 20 anos. Era um período lindo da minha vida. A gente mudava o futebol e lutava pela mudança do País. Foi muito bom."Sócrates mora em um belo apartamento em Ribeirão Preto. Diz que tem outros quatro, mas que não é rico. "Eu poderia ter muito mais coisas se não tivesse casado tanto. Nas separações, perdemos muito para as mulheres, mas eu não preciso de muito para ser feliz. Se tiver muito dinheiro, tomo cerveja em um lugar chique. Se tiver pouco, vou para um boteco. Amigo nunca falta para me acompanhar."Depois que parou de jogar, Sócrates foi técnico do Botafogo, diretor do Cabofriense, montou uma clínica médica, iniciou o Mestrado, comentou jogos na TV, escreve para jornais e revistas e não sabe o que fará do resto da vida. Gostaria de trabalhar em um clube grande, mas acha difícil receber convites.E a melhor definição de Sócrates pode estar entre seus amigos do "Bloco do Berro", que saiu no sábado, antecipando o Carnaval de Ribeirão. O tema era "Os 50 anos de Magrão". E a letra do samba diz assim: "Na Grécia Antiga, seu aluno foi Platão/Democracia, futebol e muita cachaça/Achava graça caminhar na contramão/Seu calcanhar fez o mundo tremer/De Copa em Copa o Brasil vencer..."Tirando o Platão, o resto é tudo verdade!

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