Sócrates compara passe à escravatura

O ex-atacante da seleção brasileira Sócrates disse nesta quinta-feira que todas as alegações dos clubes de futebol para adiar a extinção do passe dos jogadores "são absolutamente iguais às que eram empregadas para prorrogar a escravatura no Brasil". "É mais fácil deixar o escravo na mão porque ninguém quer deixar de ganhar dinheiro", comparou, na audiência pública realizada pela CPI do Futebol para debater a lei que acaba com o passe dos jogadores de futebol, a partir de 26 de março. A questão também foi debatida pelo advogado especializado em legislação esportiva, Marcílio Krieger, e pelo advogado do Goiás, João Bosco Luz de Moraes, que representou o Clube dos 13. Sócrates e Krieger insistiram na tese de que os clubes tiveram três anos para se adaptarem à mudança e nada fizeram. Eles também questionaram a posição omissa dos clubes diante de denúncias sobre o desvio do dinheiro arrecadado na venda dos passes de jogadores. "Estão reclamando de quê?", perguntou Krieger. ?É o estelionato futebol clube que existe em função da compra e venda de jogadores", observou Sócrates. Moraes defendeu o adiamento da lei "por um ou dois anos", mas não conseguiu apresentar argumentos que justificassem a medida. O presidente da CPI, senador Álvaro Dias (PSDB-PR), informou que vai levar ao ministro do Esporte, Carlos Melles, a posição da comissão pela entrada em vigor da lei na data prevista. "Se antes já pensávamos assim, nossa convicção aumentou depois de conhecermos o submundo do futebol", justificou. Para o advogado Krieger, o caos existente hoje no futebol não é culpa da lei "e foi provocado por administradores incompetentes". "O que não é possível continuar é a situação atual", defendeu. Segundo ele, o ideal é extinguir já o passe e dentro de seis meses fazer uma avaliação do que deve ou não ser mudado na lei, tendo por base as ações trabalhistas apresentadas por jogadores. Para Sócrates, a dificuldade dos clubes em aceitar o fim do passe vem da prática de vender o jogador e não o espetáculo. "É como se em vez de vender a obra de arte, se negociasse o artista", argumentou. Citou como exemplo o fato de o Corinthians e o Palmeiras terem 25 milhões de aficcionados, mas que ainda assim não conseguem levar aos estádios mais de duas mil pessoas. Na avaliação do ex-jogador, o futebol "virou um antro de negociata em que até mesmo os jogadores de pequeno e médio porte, para assinar contratos, submetem-se a dividir seus salários com empresários, treinadores e também com o diretor do time". João Boscou Moraes - que se referiu ao Clube dos 13 como "a maior entidade do mundo no segmento do futebol" - disse que o fim do passe vai provocar a migração de jogadores brasileiros para Europa e Estados Unidos. "Se a lei vigorar, o Brasil passará a ter um futebol do terceiro mundo", alertou. "Vamos disputar apenas com os times africanos". Sócrates disse que esse tipo de colocação "é uma bobagem". "Eles (os jogadores) já foram para Europa, já estão lá e só não foi ainda quem não se destacou para isso", justificou. Ele apontou as várias denúncias sobre o uso de passaportes falsos como "retrato de uma indústria que vive de vender jogadores para o exterior".

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