Alexandre Vidal/Flamengo
Alexandre Vidal/Flamengo

'Sombra' de Jorge Jesus ainda ronda técnicos do Flamengo e ameaça Renato Gaúcho

Desde que o português retornou ao Benfica, seus sucessores, Domènec Torrent, Rogério Ceni e agora até o ídolo do clube, sofrem com pressão da torcida por títulos e futebol de alto nível

Pedro Ramos, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 14h36

Ouvir a torcida do Flamengo cantar “olê, olê, olê, Mister”, a música do antigo técnico Jorge Jesus, não era o que o atual treinador Renato Gaúcho esperava presenciar no Maracanã na semifinal da Copa do Brasil contra o Athletico-PR, na última quarta-feira, 27. A equipe carioca foi derrotada pelos paranaenses por 3 a 0 e Renato ouviu xingamentos dos torcedores e, após a eliminação, pediu para deixar o clube, mas foi convencido a ficar por membros da diretoria. A sombra de Jesus, que teve cinco títulos e apenas quatro derrotas com o Flamengo entre 2019 e 2020, ainda ronda a Gávea desde que o português deixou o Brasil para treinar o Benfica.

Na coletiva, despistou sobre os cantos da torcida para Jorge Jesus e disse entender que as cobranças são comuns no clube. “Uma coisa super normal no momento que você está trabalhando num clube grande, último treinador que passou aqui e teve sucesso. Torcedor de um grande clube sempre vai lembrar do treinador que venceu, faz parte da nossa profissão. O treinador nem sempre vai ganhar todas, vai lembrar do cara que passou aqui, trabalhou alguns meses e ganhou títulos importantes. Mas já estou vacinado, a cobrança vai sempre existir”.

Desde os tempos em que comandava o Grêmio, Renato já havia minimizado os feitos de Jorge Jesus no Flamengo. “No momento em que um clube se dispõe a gastar R$ 200 milhões, aí você pode cobrar deles títulos e futebol bonito”, cutucou à época.

O início do técnico Renato Gaúcho no Flamengo foi empolgante: 12 vitórias nos 14 primeiros jogos, com 45 gols marcados. No período, foram oito triunfos com mais de três gols de diferença. Mas os resultados recentes, como derrotas em casa para Internacional, Grêmio e o clássico com o Fluminense, pesaram sobre o treinador, que foi criticado também pelo nível de atuação abaixo do esperado.

As críticas dos torcedores ao trabalho de Renato Gaúcho não são novidade no Flamengo. Desde que Jorge Jesus retornou ao futebol português, seus sucessores, Domènec Torrent, Rogério Ceni e agora Renato Gaúcho, lidam com a grande pressão por títulos e futebol de alto nível. Ceni até ganhou títulos do Campeonato Carioca, Campeonato Brasileiro e Supercopa do Brasil, mas também enfrentou pressão e foi demitido em julho após uma derrota para o Atlético-MG.

“O elenco é muito forte, é muito bom. Todo treinador gosta de um elenco desse, faz parte da nossa vida. O próprio Jorge Jesus esteve aqui e perdeu, saiu da Copa do Brasil também. Depois ganhou o Brasileiro e a Libertadores. Nós sempre estamos expostos a cobranças”, disse Renato.

Em agosto, questionado sobre o bom início de Renato, Jesus disse que o técnico brasileiro não repetirá o seu sucesso no clube. "Melhor que o meu (trabalho) não é verdade. A pontuação que o Flamengo faz no Brasileirão e da Libertadores... a equipe não fará os pontos que fizemos. Pode ser campeão brasileiro, ainda é possível. Mas é difícil fazer igual aquilo que fizemos em 14 meses", afirmou ao SBT.

Em uma palestra no Global Football Management, evento que ocorreu em Lisboa neste mês, Jorge Jesus voltou a apontar a diferença entre seu trabalho no Brasil e o de outros técnicos brasileiros.

“Os jogadores brasileiros não conheciam tão bem o jogo sem bola. Que a tática é tão importante quanto a parte técnica. Foi preciso muito trabalho para fazê-los entender. Sem vaidade, isso começou a mudar depois da nossa passagem pelo Brasil”, disse.

O clima é tenso na Gávea, com a eliminação da Copa do Brasil e os resultados ruins recentes. O atacante Gabigol, que está há oito jogos sem marcar, teve um copo arremessado em sua direção na saída do campo. Alguns torcedores xingaram sua mãe na saída do estacionamento do estádio. O jogador se manifestou através de uma nota oficial nesta quinta-feira, 28, lamentando a eliminação e dizendo que não vai tolerar falta de respeito.

"Tenho certeza que todo elenco está chateado com o resultado, mas ciente de que podemos dar a volta por cima e almejar novas conquistas. Mas jamais aceitarei agressões, falta de respeito e xingamentos, principalmente aos meus familiares, que tanto se dedicaram para que eu pudesse estar aqui".

O Flamengo tem mais um jogo decisivo nesta semana. No sábado, às 19h, enfrenta o líder Atlético-MG, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro. Treze pontos atrás do Atlético e com dois jogos a menos, o time carioca precisa vencer para continuar sonhando com o título. No momento, o Flamengo é o quarto colocado com 46 pontos, contra 59 do time mineiro.

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