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Somos todos macaquitos

Nunca tive em alta conta a Libertadores e o correr dos anos piora minha impressão

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2017 | 03h00

Assim eram chamados os jogadores brasileiros, a plenos pulmões, nos estádios da Argentina, do Uruguai e também do Chile. Acostumei-me a ouvir isso ao longo dos anos, isso é dos anos 50 e 60. Não era exatamente uma ofensa de tom racista. No Uruguai, por exemplo, há muitos negros. No jogo de quarta-feira, havia no Peñarol mais de um jogador negro e creio que entre torcedores uruguaios ninguém chamaria seus negros de macacos. A coisa é outra. É uma ofensa que fala mais de realidades sociais e históricas do que do resto.

Macaquitos eram os menos civilizados, os caipiras da América, os desdentados, miseráveis que ainda assim eram subservientes e dóceis diante de qualquer autoridade, isto é, nós, e também colombianos, peruanos, equatorianos, paraguaios. Isso mudou muito ao longo dos últimos 50 anos. Não porque tenhamos sido nós a progredir, acho que progredimos bem pouco ou nada, mas eles, ao contrário, é que decaíram muito. Aos poucos Uruguai, Argentina e Chile foram se tornando América Latina, meros macaquitos, como os outros. A elite e as classes medias argentinas e uruguaias talvez enxerguem a situação; o povo, menos. A esse é difícil abandonar ideias da superioridade, muitas vezes imaginária, a que se apegam como consolo da sua própria sorte miserável. 

Por essa recusa de aceitar a própria condição, ocorrem episódios como os de quarta-feira no estádio orgulhosamente chamado de “El campeón del siglo”. A qual “siglo” se referem? Certamente de conquistas passadas que ficam assombrando suas cabeças como aparições indesejáveis. Bem, depois do susto passado, e a constatação evidente de que nada de muito grave aconteceu, as imagens da briga, à força de se repetirem, adquirem inevitável aspecto cômico.

Felipe Melo sendo perseguido como num filme mudo, os seguranças do Palmeiras um pouco idosos, um pouco acima do peso, mas que se mostraram profissionais consumados, experientes ao proteger sem nunca agredir. Depois, o jogador que tomou o direto de Felipe Melo, perplexo, admirado de ter levado um soco numa briga, e, finalmente, já quase nos vestiários, um torcedor uruguaio, de aspecto operário e simples, ofende Michel Bastos e ao menor sinal de reação sai correndo assustado. 

São, cômicas ou trágicas, imagens de uma pobre América Latina que se desfaz moral, econômica e socialmente. Cansei de ouvir comentaristas falando em tom indignado sempre a mesma frase: “Isso NÃO é Libertadores!!” Pois isso, meus caros, é exatamente a Libertadores. Sempre foi e sempre será enquanto os fantasmas da miséria, da impotência e do desespero pairarem sobre o continente. Sempre será enquanto sofrermos, todos, a humilhação de ver nossos melhores indo para a Europa divertir os eleitos da sorte.

Em outros tempos o Santos de Pelé, depois de ganhar duas vezes a Libertadores em seguida, abriu mão de disputar esse torneio. Sabiam (os jogadores) que havia muito mais do que futebol em jogo, e não eram idiotas de arriscar suas talentosas canelas contra adversários com motivações misteriosas e ancestrais. Agora, estamos todos igualados na mesma vala comum, mas todos entusiasmados pelo sucesso da Libertadores. Nunca tive em alta conta esse torneio e o correr dos anos só faz piorar minha impressão: ainda gosto de ver futebol. 

Não me ocorreu antes dedicar a alguém uma coluna que escrevo. Ninguém merece homenagem tão medíocre. Mas não posso deixar de me lembrar de meu amigo há mais de 40 anos Pedro Pablo Lazzarini, fotógrafo, argentino e muito corintiano, que morreu faz poucos dias. Ele era um dos que estavam acostumados a avaliar corretamente o que aconteceu em Montevidéu. Já há muitos anos era um dos nossos macaquitos.

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