Stefan Wermuth/Reuters
Stefan Wermuth/Reuters

Sonhando com a Copa de 2014, goleiros querem voltar a jogar no Brasil

Gomes e Doni, que estiveram na Copa de 2010, sofrem com o banco de reservas na Inglaterra e querem voltar para reerguer carreira

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

13 de janeiro de 2013 | 09h12

Diz o ditado que a grama não nasce onde o goleiro joga, tamanha a ingratidão da profissão. E o que acontece quando os goleiros nem são escalados? Dos três arqueiros que foram à Copa de 2010, Gomes é a terceira opção no gol do Tottenham e Doni é o terceiro no Liverpool, ambos da Inglaterra - entre 2008 e 2010, Cavalieri já havia esquentado o banco no mesmo Liverpool. Só Julio Cesar é titular (ver matéria abaixo).

Essa "maldição inglesa" que recai sobre os goleiros brasileiros diminui as opções de Felipão para a sua primeira convocação, no dia 22. Ele está começando do zero para escolher o um da seleção. Mano Menezes convocou doze nomes diferentes e, noves fora, nada. Embora os dois goleiros tenham algumas das características ideais apontadas por Carlos Pracidelli, preparador de goleiros da seleção brasileira, como experiência e maturidade, os dois reconhecem aos amigos e familiares que não estão na crista da onda. O banco de reservas é mais árido do que a área em que a grama não nasce.

Depois de dois anos como suplente, Gomes se cansou de assistir aos jogos do seu time quando não era relacionado. Frustrado, prefere passear com a mulher e os dois filhos pelos parques de Londres. Até os torcedores de Sete Lagoas, onde começou a carreira, trocam de programa durante a Premier League. "Quando ele era titular a gente acompanhava os jogos. Agora ficou mais difícil", confessa, sem jeito, Luís Fernando Gomez, supervisor de futebol do Democrata, clube em que o goleiro começou a carreira.

Essa audiência começou a cair em abril de 2011. Nas quartas de final da Copa dos Campeões, Gomes falhou no jogo contra o Real Madrid: 1 a 0 no placar final. A imagem ao lado fala por si. No clássico contra o Chelsea, na semana seguinte, outro frango. Depois, veio uma cirurgia no joelho esquerdo que o tirou de combate por um mês e o relacionamento azedou com o técnico Harry Redknapp. Gomes perdeu a vez. O site do Tottenham informa que ele jogou apenas quatro partidas na temporada 2011/2012, três delas pela Liga Europa. Não dá para saber quantos gols levou já que a página só mede o desempenho dos dois titulares: o americano Brad Friedel e o jovem Hugo Lloris, goleiro do ano no Campeonato Francês na temporada passada jogando pelo Lyon.

"Ele tem de ter paciência e esperar a chance", diz João Paulo, treinador do Democrata e que jogou com Gomes em 1998. "Todo goleiro falha. Ele foi pego para Cristo. É uma punição que ele não merece", diz o irmão Antonio Gomes da Silva.

Antonio é suspeito para falar de Gomes. Em 2005, escreveu o livro de poesias "A trajetória de um grande campeão" para homenagear o mano. E já prepara a segunda edição, em que vai contar toda a carreira do ídolo que integrou o lendário time do Cruzeiro de 2003, campeão da Tríplice Coroa. "O livro continua, mesmo que ele esteja na reserva."

Daria para fazer outro livro só com os próprios irmãos de Gomes. Foram 12, oito homens. E deles, quatro goleiros. Os locutores ficariam loucos se tivessem vingado no futebol: Liberço, Hereulane, Zaite e Heurelho (esse é o Gomes).

PATRIOTA

Doniéber Alexander, o Doni, poderia fazer parte do clã - pelo nome esquisito e pela história de altos e baixos. Na seleção brasileira, ele venceu a Copa América de 2007 e ganhou moral com o então técnico Dunga depois de peitar a Roma, seu clube, em 2009, para jogar dois amistosos pela seleção.

Como prêmio, foi convocado para a Copa de 2010, mas foi posto na reserva de Julio Sergio no clube italiano. "O Doni só está na reserva da Roma porque quando o convoquei o clube pediu para ele não ir. Por patriotismo e paixão, ele foi para a seleção. Como poderia deixá-lo fora?", elogiou Dunga, na convocação para a Copa.

Só um novo ato de patriotismo pode reconduzir Doni à seleção. No Liverpool desde junho de 2011, ele é o terceiro da posição - atrás de Reina e Jones. O ex-goleiro do Corinthians só jogou quatro vezes na temporada passada. Em uma delas, contra o Blackburn, pelo Campeonato Inglês, entrou e foi expulso.

"Tudo é momento. O fato de não estar jogando pode dificultar um pouco uma nova convocação", avalia Leandro Franco, preparador de goleiros do Comercial de Ribeirão Preto e que treinou Doni durante sua folga no Brasil - também participaram do programa especial Diego Alves, do Valencia, e Daniel Fernandes, arqueiro português que joga no Twente, da Holanda.

"Nenhum jogador aceita a reserva, mas ele se conforma pensando nos companheiros que ficaram no banco para ele próprio jogar", conta Antonio Francisco Marangon, pai de Doni.

SAÍDAS

Uma saída dos dois para essa encruzilhada inglesa é o aeroporto: voltar ao Brasil e reaparecer. Gomes esteve em Sete Lagoas para aproveitar a folga de dez dias e confessou que "a Europa já deu o que tinha de dar". Foi sondado pelo Palmeiras e Grêmio recentemente, mas o presidente do Tottenham pediu alto para liberá-lo. Aos 33 anos, Doni pensa exatamente a mesma coisa. "Ele me disse que vai voltar se aparecer uma boa oportunidade", afirma Leandro Franco.

Outro caminho é se apoiar nas conquistas do passado. "O Doni está satisfeito por ter sido campeão com a seleção", diz o pai.

A terceira via é dar as mãos ao irmão poeta de Gomes, que sintetiza a vida de quem joga onde não nasce grama: Termino a história/Mas pretendo continuar/Com uma próxima edição/Porque sua trajetória não vai terminar/Esperamos que seja cheia de glória/Pra melhor poder conta

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