Nilton Fukuda/Estadão
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Sonho e realidade

Ganhar a América tem seu mérito, mas não se pode acreditar que tudo esteja certo

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 04h30

Ganhar é sempre bom e não se deve tirar o mérito desta seleção brasileira na Copa América 2019. Não tivesse ficado com a taça, seria um desastre em todos os sentidos, do futebol nada convincente apresentado em alguns jogos, passando pela mesmice de comportamento de seus jogadores até sucumbir na final diante de um rival muito mais fraco e em outro estágio no ranking mundial.

Então, na América, depois de algumas decepções, o Brasil volta a mandar. É preciso, no entanto, manter os pés no chão, os dois pés, para que muita coisa avance no time, desde a chegada de melhores jogadores nas listas até um futebol mais bem jogado, convincente, mais bem entrosado e, acima de tudo, diferente dos rivais.

Nesta Copa América, o torcedor acabou com algumas de suas dúvidas em relação ao time, embora tenha ganhado outras. Sabemos agora que o Brasil é igual a todas as equipes do continente. Sobrou apenas diante do Peru, na primeira fase, muito mais porque o rival errou no seu posicionamento e abriu demais a defesa. Sabemos também que Everton, o melhor jogador da final no Maracanã, precisou de dois meios tempos para ganhar notoriedade e ser apontado como o melhor do elenco. Começou sendo chamado de Everton, passou a Everton “Cebolinha” e depois, na voz rouca do maior narrador de todos, Galvão Bueno, só de “Cebola”. Atacante que chegou reserva e acabou com titular absoluto.

Foi graças ao seu futebol aberto pela esquerda e de dribles e gols, que a seleção mudou seu modo de atuar. Tite, praticamente, só o colocou para jogar.

Sabemos ainda que a seleção continua com a mania de chorar na tristeza, a exemplo do que ocorreu com Gabriel Jesus ao ser expulso na final. Chorou e quase se arrebentou ao socar e chutar as armações do banco de reservas.

Também não é novidade para ninguém que o Brasil continua carecendo de armadores, daqueles jogadores em condições ditar o ritmo da partida, acelerar quando é para acelerar, reduzir quando é para reduzir, mas, acima de tudo, distribuir a bola, inverter jogadas, criar lances. Resumindo: do cara que entrega inteligência no meio.

Constatamos ainda que é possível erguer taças e ganhar prêmios jogando o simples e sem nenhum craque em campo. A Copa América foi conquistada sem Neymar, e isso tem um significado. O Brasil é mais fraco sem ele, não há dúvida nem discussão, assim como sua ausência dá ao elenco e à comissão técnica mais tranquilidade para trabalhar. Neymar leva para a concentração todos os seus problemas de fora. Sem ele, só se falou de futebol na equipe.

Ganhar a América, voltar a sorrir e ser campeão, resgata a história do País pentacampeão mundial, da seleção que encantava o público e o planeta.

Isso é bom porque dá confiança para Tite continuar seu calvário e também aos jogadores nos próximos chamados, que serão para amistosos e Eliminatórias da Copa do Catar. Não se pode tirar essa condição do time. Ocorre que a festa da conquista acaba na manhã seguinte, nesta segunda-feira, e o banho de realidade mais uma vez nos enche de dúvidas e incertezas.

O melhor da América é capaz de ganhar dos melhores da Europa? Bater o Peru numa final de competição em casa é suficiente para confiar na equipe e nos seus jogadores? Um time campeão deve ser mudado? Alguém de nós esperava outro resultado da disputa no Brasil? A defesa foi, de fato, testada nas seis partidas que jogou? Um gol sofrido, de pênalti, representa a segurança que o Brasil precisa para as Eliminatórias?

Todas esses são questionamentos que o torcedor não consegue responder pelo que acompanhou do Brasil nesta Copa. O caminho para suas respostas me parece longo e árduo, e, se me permitem, de mais coragem por parte do treinador Tite.

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