Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

'Sou o presidente de fato e de direito da CBF', diz coronel Nunes

Apesar de sofrer com o isolamento, dirigente não pretende sair do cargo até o fim do mandato, em 19 de abril de 2019

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2018 | 05h00

“Sou o presidente de fato e de direito da CBF.” A declaração é do coronel Antônio Nunes que, em teoria, comanda uma das maiores entidades do futebol no mundo, apesar de seu isolamento. Em seu último dia na Rússia, depois de um mês no país da Copa do Mundo, o dirigente comentou ao Estado sua situação, da seleção e mesmo da Copa América. Em suas declarações, deixou claro que não pretende abrir mão do cargo. 

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“Meu mandato termina em 19 de abril de 2019 e então passaremos para o Rogério (Caboclo)”, disse. Em sua avaliação, não há nada de errado na forma pela qual assumiu a presidência da entidade. “Os estatutos foram respeitados”, ressaltou.

Nunes assumiu o posto depois que Marco Polo del Nero foi afastado do futebol, por corrupção. Antes da queda, porém, ele manobrou para colocar Nunes no cargo de vice-presidente e, por sua idade, atender ao critério de ser seu sucessor até as próximas eleições, que apontaram Caboclo para a cadeira. 

Presidente da Federação Paraense de Futebol por seis mandatos e coronel da reserva da Polícia Militar do Pará, Nunes é também investigado pelo Ministério Público daquele Estado pela sua atuação no futebol. Em 2011, 12 e 13, a federação recebeu R$ 3,5 milhões de verba pública. Os promotores querem saber como foi gasto o dinheiro.

Último representante da CBF em Moscou, Nunes deixa a cidade hoje, quatro dias depois da eliminação da seleção brasileira. O problema, segundo ele, foi encontrar voos de volta. Nesses dias, porém, o presidente da CBF não participou de qualquer reunião e, em pelo menos duas ocasiões, saiu do hotel apenas para passeios por Moscou. 

 

Hospedado no luxuoso Hotel Ukraina, seu quarto tem um preço de tabela de US$ 700 por dia. No total, sua estadia na Copa teria custado mais de R$ 55 mil. 

Nunes ainda insistiu que Tite fez um “excelente trabalho” e que não haveria motivo para encerrar sua participação como treinador da seleção brasileira. “Se a bola entra no fim do jogo contra a Bélgica, o Brasil teria virado na prorrogação. Mas os deuses do futebol não estavam de nosso lado”, lamentou. 

O dirigente admitiu sua “tristeza” diante do resultado. Mas aposta numa conquista do Brasil na Copa América, em 2019. “Em casa, temos de ganhar”, disse, lembrando que também faz parte do Comitê Organizador do evento. Apesar de suas certezas, Nunes terá seu destino debatido já no próximo mês. Alvo de controvérsias durante a Copa do Mundo, ele será o foco da próxima reunião do Conselho da Conmebol, em agosto.

A entidade sul-americana e os demais presidentes da região querem avaliar uma punição contra o brasileiro depois de ele ter rompido acordo do bloco sul-americano no que se referia ao voto para a escolha da sede da Copa de 2026. Mas ainda pesa sobre ele suas declarações dadas ao Estado, acusando a Conmebol de ter imposto um “voto de cabresto”, o que a entidade nega.

Uma punição na Conmebol, porém, poderá reabrir o debate sobre sua permanência na CBF. O grupo ligado a Marco Polo del Nero quer sua continuidade até abril de 2019, como forma de garantir que Rogério Caboclo possa assumir sem sobressaltos. Mas, nos bastidores da entidade, federações estaduais já estudam a possibilidade de formar um colegiado, exigir seu afastamento e pedir novas eleições. 

Isolado pela Fifa e recluso pelo constrangimento, o presidente da CBF praticamente só saiu de seu hotel de luxo para os cinco jogos do Brasil. Ele passou a ser alvo de ironias por parte dos dirigentes estrangeiros, além de questionamentos sobre a seriedade da instituição. 

A estadia do cartola na Rússia beirou o desastre, com uma repercussão imediata para a imagem do futebol brasileiro. Poucos dias depois de votar pelo Marrocos, Nunes se envolveria numa briga em um restaurante. Um torcedor, para provocá-lo, se aproximou de sua mesa e o teria acusado de estar “mamando” na CBF. A confusão acabou com um copo quebrado pelo assistente do presidente, Gilberto Batista, na cabeça do torcedor. O assistente foi imediatamente enviado de volta ao Brasil.

A situação levou Nunes a abandonar todos os eventos oficiais da Conmebol, onde ainda é conselheiro. A CBF criou uma espécie de cordão de isolamento, com assessores e mesmo dirigentes encarregados de não permitir que a imprensa se aproximasse do cartola. O cordão de isolamento, porém, também servia para que Nunes fosse monitorado e que não voltasse a cometer gafes na Copa da Fifa.

Por semanas, suas únicas saídas eram para demorados cafés da manhã num dos hotéis mais luxuosos do país e da Europa, ou passar horas nos sofás dos bares do local, conversando apenas com seus familiares e assistentes. Dirigentes ironizavam como o coronel repetia sua surpresa diária com o fato de o sol aparecer cedo no verão russo.

 

 

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