AP/Natacha Pisarenko
AP/Natacha Pisarenko

Spray de pimenta faz clássico Boca e River ser suspenso

Drone, gelo seco e Polícia Federal também fizeram parte do jogo

Rodrigo Cavalheiro - Correspondente em Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2015 | 23h30

Atualizado 15/05/2015, às 07h30

O Cruzeiro terminou a noite de quinta-feira, 14, sem saber quem enfrentará nas quartas de final da Copa Libertadores. No retorno do intervalo, quando a partida estava 0 a 0, após um primeiro tempo controlado pelo River Plate contra o Boca Juniors no estádio La Bombonera, gás de pimenta foi jogado contra os jogadores visitantes. Depois de mais de uma hora de paralisação, às 23 horas, foi anunciado pelo sistema de som que a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) havia suspendido o jogo. A decisão sobre se o restante da partida será disputado ou se os pontos irão para o River não foi formalizada. Quatro jogadores visitantes foram de madrugada para o Instituto de Queimados de Buenos Aires.

Segundo o inciso primeiro do artigo 23 do regulamento da Conmebol, "qualquer equipe cuja responsabilidade determine o resultado de um jogo será considerada perdedora por 3 a 0". Se não for comprovada a autoria, a partida deveria continuar dentro de 24 horas, ou em outra data estabelecida pela Conmebol. A decisão deve ocorrer nesta sexta-feira, 15.

"É uma vergonha para os times argentinos. É doloroso que dois ou três anti-sociais lesionem um jogador, provoquem queimaduras, suspendam a partida, façam um estádio ser fechado", disse Daniel Angelici, presidente do Boca. "Acho que o time não tem responsabilidade", completou. Ele afirmou que câmaras buscarão os culpados. O gás foi jogado dentro do túnel inflável quando River retornava para o segundo tempo. Este tubo é armado do lado da torcida 12, a mais fanática do clube, que fica atrás do gol à direita dos camarotes. 

Pelo menos três jogadores do River sofreram queimaduras de primeiro grau, segundo o médico do clube, Pedro Hansing. Embora a substância inicialmente tenha sido apontada como gás pimenta ou gás lacrimogêneo, as lesões nas costas e no pescoço de pelo menos quatro jogadores levantaram a possibilidade de que se trate de outro tipo de produto químico. Havia jogadores com a vista e os rostos inchados. O meia Leo Ponzio não conseguia sequer abrir os olhos. "Isso não pode ocorrer, estou queimado. Estamos em outro país, é mais que uma guerra, é um problema de sociedade e foi gerado por todos nós". Quatro jogadores foram levados para o Instituto de Queimados de Buenos Aires.

Uma das versões cogitadas é que a irritação nos olhos tenha sido causada por gás pimenta, espalhado pelos ventiladores que inflam o túnel, e as queimaduras sejam consequência de sinalizadores. "Espero que isso seja decidido em campo. Não posso dizer que isso é mais ou menos justo, mas essa é a vontade de seus jogadores", disse o atacante do Boca Daniel Osvaldo.

Os principais questionamentos foram lançados sobre a rigidez da revista no estádio, que não detectou a entrada do gás. Sinalizadores foram lançados e até um drone com uma bandeira com a letra B, em referência ao rebaixamento do River em 2011, sobrevoou o gramado, lançado da torcida 12. Na partida do dia 7, no Monumental de Nuñez, houve pelo menos cinco revistas nos torcedores que entraram ao setor mais popular. Ainda assim, também havia sinalizadores. "Alguns dirigentes estão pressionados. As vezes bengalas são escondidas no dia anterior", afirmou o secretário nacional de segurança, Sergio Berni. A manchete dos meios locais falava em "escândalo", "papelão" e "vergonha".

O JOGO

No primeiro e único tempo da partida, a torcida do Boca jogou mais que o time. Houve apenas um chute a gol do River Plate, de González Martínez, aos 17 minutos. Os visitantes comandaram a primeira etapa sem precisar ter mais posse de bola. Os erros de passe do Boca enervavam os torcedores - na Argentina, não há espaço para visitantes nas arquibancadas, em razão da violência. A aflição contaminava os jogadores "xeneizes", que erravam mais passes, perdiam divididas e aumentavam a irritação na arquibancada.

Wenceslao Menceyra, de 13 anos, que antes de o jogo começar apostava num 2 a 0, repetia os palavrões do pai, Florencio, de 41 anos, que trabalha no mercado financeiro em Buenos Aires. As principais ofensas da dupla eram dirigidas ao juiz Darío Herrera, que na primeira etapa deu quatro amarelos para o Boca e um para o River.

O controle do ritmo do jogo pelo River calou por momentos a torcida. A primeira etapa acabou com apenas um chute a gol do time local, dado aos 25 minutos no centro do gol, por Osvaldo, a maior estrela do time. Mesmo que a chance não tenha sido clara, fez a arquibancada da Bombonera tremer. "Tem que lutar, tem que lutar, vamos, vamos Boca, temos que ganhar", era um dos gritos mais repetidos.

A empolgação durou pouco. A partir dos 30 minutos, o River voltou ao controle. O Boca recorria a bolas altas, sem efeito. Com duas linhas de quatro organizadas pela equipe visitante, por baixo o Boca também não conseguia fazer a bola chegar a Osvaldo. Nervoso, o advogado Facundo Jiménez, de 42 anos - que definiu o jogo como o "mais importante da década" -, tirou o chapéu em formato de cone azul e amarelo. Passou a mordê-lo.

O estádio praticamente se calou nos últimos minutos do primeiro tempo. O único setor em que se cantava todo o tempo era o localizado atrás do gol do River no primeiro tempo, da 12. Ali, os cânticos em alusão à ida do Rival para a segunda divisão do futebol argentino não cessavam, por mais pobre que fosse o desempenho do time local.

"Sabe o que é bom dessa atuação? Pior do que isso não podemos jogar no segundo tempo", comentou Javier Gerenstein, mestre de casamentos em cerimônias laicas, ao fim do primeiro tempo. "O técnico fez muitas mudanças em relação ao primeiro jogo. Tirou o Lodeiro (ex-Corinthians e Botafogo), que faz o time jogar. Acho que vai ter que colocá-lo no segundo tempo."

Tardaria mais de uma hora para a previsão de Gerenstein, o casamenteiro, fracassar por uma razão inédita. Gás jogado no reingresso do River ao campo, de um ponto próximo da torcida 12, impediu o reinício regular do jogo. O presidente do River, Rodolfo D'Onofrio, desceu das tribunas e pediu ao árbitro que suspendesse a partida, enquanto os jogadores visitantes recorriam a toalhas para aliviar a ardência nos olhos. O gás atingiu parte de própria torcida e, de maneira mais leve, setores da imprensa que acompanhavam o jogo na metade do campo.

A paralisação chegou a reanimar a torcida, que gritava "que não salta vai para a B", em referência ao rebaixamento dos "millonarios" - apelido ganho depois que o River construiu o Monumental, no elegante bairro de Nuñez. Também havia gritos de "gallinas", modo depreciativo com que os torcedores do Boca se referem aos do River. O equivalente contrário é "bostero", referência à origem humilde dos fãs do Boca.

Mesmo com a insistência dos organizadores para que a torcida deixasse o estádio, a maioria esperou o recomeço que não veio. Na primeira tentativa de o River sair do gramado, dezenas de garrafas plásticas foram jogadas contra o túnel por onde normalmente entra a arbitragem, no centro do campo. A torcida gritava: "Da Boca eles não saem". Os dois times só saíram de campo à 0h21min, quase uma hora e meia depois do horário previsto para o fim da partida. O advogado Facundo saiu às 23h30min, pessimista quanto ao desenlace do confronto. "Vão dar os pontos para o River", afirmou, cabisbaixo.

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