STJD, na rua da Ajuda mas sem coração

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva anda batendo um bolão. É quem mais vence na temporada, o inimigo a ser batido. Desde que o Código Brasileiro de Justiça Desportiva fez do tribunal, presidido pelo juiz Luiz Zveiter, o órgão máximo das causas esportivas, a vida dos clubes irregulares virou um inferno. É de uma área de 200 metros quadrados que as decisões do seu time são tomadas na âmbito judicial. O gol mais bonito da rodada, portanto, pode não valer nada após o veredicto dos magistrados.Por ironia, o STJD fica na rua da Ajuda, no centro nervoso do Rio, onde antes era a sede da Federação Carioca de Futebol. O 15º andar do prédio comercial de número 35 da rua também é um lugar de lamentações, sobretudo de dirigentes, atletas e torcedores que tiveram seus clubes punidos. Não há como recorrer da decisão do Tribunal Pleno, a 2ª instância do STJD.A figura imponente de Zveiter provoca arrepios. Advogados de defesa de clubes acusam o que eles chamam de uma certa vocação ditatorial do magistrado. "Ele atropela tudo. É legislador, doutrinador e julgador. Seu apelido é Sultão", diz o advogado Marcus Frederico Donnici Sion, contratado por equipes como Fluminense e Guarani.As broncas são muitas. Uma delas diz respeito à indicação de seu filho, Flávio Zveiter, a uma das comissões disciplinares. O rapaz tem 19 anos e cursa o 2º ano de direito. Seu rompimento com a CBF teria sido por causa de gastos excessivos, de R$ 1,5 milhão, durante viagem de uma comitiva para a França.Piraci Oliveira vai além. O advogado do Palmeiras prega que Zveiter não poderia estar no cargo, pois a Constituição diz que um desembargador pode apenas dar aulas. Mas nenhum dos opositores à sua maneira de conduzir o tribunal aponta desonestidade das pessoas que compõem a entidade. "Advogados desavisados e que aparecem no STJD com presentinhos são retaliados", diz Oliveira. Rinaldo Martorelli, do Sindicato dos Atletas de São Paulo, entidade que indicou Zveiter ao cargo, diz que o STJD prima pelo princípio da moralização.Balanço - O STJD funciona à noite porque seus representantes trabalham durante o dia. Ninguém é remunerado. As despesas da casa são administrativas, pagas pela CBF. Não há um balanço anual da instituição.O luxo inexiste no Tribunal. No andar onde ele funciona há dois banheiros, uma copa apertada (onde jornalistas de rádio passam seus boletins), uma secretaria. O STJD tem seis funcionários, entre eles a copeira dona Júlia. Há ainda o plenário, fechado por uma porta de correr, de madeira. O auditório tem cadeiras do tipo cinema. Em uma das extremidades da sala fica a bancada em semicírculo. Zveiter posiciona-se ao centro. Uma ante-sala completa a arquitetura. É lá que os auditores tomam as decisões, entre café e água. Não se come no STJD. Em momentos agudos, com debates de madrugada, pede-se pizza. Zveiter, que trabalha no Tribunal de Justiça do Rio, caminha cinco minutos para chegar ao STJD. Não há seguranças no andar. Há um porteiro no prédio. Não é preciso identificar-se. As sessões são abertas ao público, com restrição do tamanho do plenário (100 pessoas).As votações duram 40 minutos. Os casos são julgados primeiramente nas comissões disciplinares. Com recurso, seguem para o Pleno. O procurador faz a denúncia. Um relator dá seu parecer e vota. Os auditores o acompanham ou não.

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