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Sucesso chegou cedo para Marquinhos Santos, técnico do Coritiba

Treinador é um dos poucos que se mantêm no cargo desde o início da Série A

FERNANDO FARO , O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2013 | 08h01

SÃO PAULO - Marquinhos Santos completou um ano à frente do Coritiba na última sexta-feira e pode se gabar de fazer parte de um seleto grupo: ele é um dos sete técnicos que ainda não perderam o emprego na Série A, posto dividido com nomes de muito mais tradição como Tite, Dunga e Cuca. Com apenas 33 anos, já conquistou um campeonato pelo Coxa e agora luta para recolocar o time entre os primeiros colocados, missão que pode começar a ser alcançada com uma vitória sobre o São Paulo neste domingo, no Couto Pereira.

Em entrevista ao Estado, Marquinhos defende a longevidade dos treinadores no cargo para alcançarem melhores resultados, vê uma mudança no comportamento dos dirigentes e acredita que a globalização fará os técnicos brasileiros atingirem clubes de ponta também na Europa.

ESTADO - Muitos técnicos demoram para fazer a transição entre base e profissional. Esperava conseguir tão rápido?

MARQUINHOS SANTOS - Sempre me preparei para isso, a partir do momento que parei a jogar e voltei pra faculdade eu me preparei para chegar ao profissional. A base me deu muita bagagem e aprendizado para evoluir nesse processo, é uma escola incrível e sempre procurei me apoiar sabendo que essa oportunidade no profissional acabaria vindo. Não sei se é cedo. Acho que não, afinal estou há um ano no comando do clube e isso mostra que eu tenho mostrado alguma coisa de bom para continuar.

ESTADO - Você é um dos técnicos mais longevos na Série A. Estabilidade faz diferença na hora de trabalhar?

MARQUINHOS SANTOS - Sem dúvida. Sabemos que temos um futebol de resultados imediatistas, mas aos poucos as pessoas estão percebendo que os melhores resultados são os de continuidade; basta olhar os trabalhos do Cuca no Atlético-MG e do Tite com o Corinthians. É a partir do médio prazo que se consegue apresentar alguma coisa mais consistente e sólida em termos de resultados e de padrão de jogo.

ESTADO - Como tem sido a recepção dos técnicos? A classe é mesmo desunida?

MARQUINHOS SANTOS - Para mim tudo é muita novidade ainda. Confesso que tenho tido uma aceitação muito grande pelo outros treinadores e não tenho tido essa dificuldade de relacionamento. Com a criação dessa federação (Federação Brasileira de Treinadores de Futebol) acho classe pode ficar mais junta e batalhar por melhorias nas condições de trabalho.

ESTADO - Acha que a cultura de trocar técnicos a todo instante mudará algum dia?

MARQUINHOS SANTOS - É difícil, estamos falando de uma cultura complicada de se mudar porque vem de muitos anos. Ainda assim acredito que vemos alguns indícios de uma permanência maior nos clubes que estão se organizando, basta ver os exemplos que dei. É um passo pequeno para mudarmos esse cenário, a caminhada é longa, mas é possível, sim, mudar.

ESTADO - O que técnicos da nova geração têm de diferente a oferecer em relação aos veteranos?

MARQUINHOS SANTOS - Não vejo muita diferença, acredito mais na mescla entre essa safra nova e os grandes treinadores que estão no mercado. É através dessa troca de experiências e conceitos, desse fluxo de informações, é que vamos construir uma geração tão vencedora e bem preparada essa que está há algum tempo aí e continua dando frutos.

ESTADO - Costuma-se dizer que os técnicos brasileiros pararam no tempo. Concorda?

MARQUINHOS SANTOS - Não vejo dessa maneira, acredito que os treinadores estão tentando se atualizar com o que há de mais moderno. O Dorival (Júnior, técnico do Vasco), por exemplo, estava na Europa fazendo uma reciclagem antes de ser contratado; o Felipão é outro que teve a humildade de se recriar e isso mostra nossa capacidade de aprendizado. Eu tive a chance de ir duas vezes para a Espanha conhecer o Barcelona e entender o estilo de jogo deles. Isso ajudou muito e ainda hoje troco e-mails e telefonemas com profissionais de fora para debatermos táticas e a filosofia de jogo. Em termos de literatura o Brasil ainda é muito escasso no tema, mas existem boas referências em Portugal e na Espanha que ajudam a atualizar quem esteja interessado.

ESTADO - Então por que a escola brasileira não tem sucesso fora do país?

MARQUINHOS SANTOS - Talvez, inicialmente, pela questão da língua. É o primeiro bloqueio, sem dúvida, e técnicos sul-americanos acabam levando vantagem nesse quesito. Isso é inegável. Mas acredito que essa filosofia tem diluído dentro da globalização, as fronteiras estão ficando menores e, na minha opinião, dentro de um prazo curto teremos treinadores sem clubes de ponta também na Europa.

ESTADO - Como é comandar jogadores às vezes mais velhos que você?

MARQUINHOS SANTOS - É um momento importante da minha carreira, minha primeira experiência num clube profissional e com jogadores do calibre de um Alex, um Deivid, um Lincoln, atletas experientes que passaram pelas mãos de alguns dos melhores treinadores do mundo. Eles têm total liberdade para conversar comigo e conseguem me avaliar, o feedback que tenho recebido deles e dos demais tem sido bastante positivo, isso me faz crer que estou traçando um caminho correto nesse início de profissão.

ESTADO - Alex ainda é um dos melhores do Brasil? Qual a influência dele no Coritiba?

MARQUINHOS SANTOS - Mais do que um jogador, ele é um atleta de futebol e soube fazer uma carreira muito boa preservando seu instrumento de trabalho, que é o corpo, que o permite desenvolver seu jogo em alto nível até hoje. Além do perfil de líder, ele é importante para a montagem do nosso estilo de jogo, que é baseado na posse de bola e no passe em profundidade. É um jogador acima da média.

ESTADO - Onde o time pode chegar no Brasileiro?

MARQUINHOS SANTOS - Acredito muito no trabalho para se alcançar resultados. Temos um planejamento estabelecido que contempla além do tetracampeonato regional, que já foi alcançado, passa pela conquista de um grande resultado. Na nossa concepção isso é uma vaga para a Libertadores via Brasileiro ou Copa Sul-Americana. No Nacional, se chegarmos no último quarto de campeonato no bloco dos primeiros colocados, aí sim poderemos falar com mais propriedade em disputar o título.

ESTADO - Acredita que vai conseguir tirar vantagem da angústia do São Paulo hoje?

MARQUINHOS SANTOS - É um aspecto que vamos trabalhar em cima, sem dúvida. O São Paulo tem uma grande camisa, uma grande equipe e está passando por um momento delicado. É um gigante que a qualquer momento pode acordar. Meu trabalho é fazer com que ele acorde só depois do jogo.

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