AP Photo/Dmitry Serebryakov
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Sucesso dos EUA coloca foco nas falhas suíças no caso de corrupção da Fifa

Autoridades confirmaram que pretendiam desistir de um dos dois processos contra Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa

Tariq Panja, The New York Times

14 de abril de 2020 | 10h30

Dias após o Departamento de Justiça americano ter revelado mais detalhes em relação ao caso que analisou a corrupção no coração do futebol por décadas, as autoridades suíças confirmaram que pretendiam desistir de um dos dois processos contra Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa, a federação global que governa o esporte. Blatter era suspeito de conduta imprópria nos negócios e, possivelmente, desfalque, segundo as autoridades suíças, e ele e a Fifa estavam sendo investigados pela concessão dos direitos de transmissão da Copa do Mundo no Caribe em 2005.

O revés foi outro golpe na credibilidade da acusação suíça contra a autoridade do esporte mais popular do mundo. A investigação na Suíça começou em setembro de 2015, quatro meses depois que uma acusação do Departamento de Justiça delineou esquemas de corrupção que envolviam alguns dos líderes, empresários e empresas mais importantes do futebol na época. Enquanto os Estados Unidos já processaram com êxito muitos deles, a Suíça tem falhado em suas tentativas de se igualar as contrapartes americanas na busca de condenações e acusações.

Em reação, Blatter disse ao The New York Times por telefone no domingo que estava frustrado com o tempo que os suíços levaram para tomar uma decisão. "Como assim você precisa de mais de 4 anos e meio para lidar com caso como esse?" ele disse. Ele há muito tem negado qualquer irregularidade.

Um segundo processo criminal contra Blatter - por um pagamento de US$ 2 milhões que ele é acusado de ter autorizado para um vice-presidente da Fifa, Michel Platini, em 2011 - permanece aberto, informou a promotoria suíça. Em sua decisão, o gabinete do procurador-geral da Suíça disse que Blatter não tinha nenhum caso para responder por conceder direitos à Copa do Mundo no Caribe por apenas US$ 600 mil à União de Futebol do Caribe (CFU, na sigla em inglês). Mais tarde, a CFU vendeu os direitos por quase US$ 20 milhões. O escritório do procurador-geral da Suíça não deu um motivo para desistir da acusação.

A CFU era controlada por Jack Warner, ex-vice-presidente da Fifa de Trinidad que lutou contra a extradição para os Estados Unidos desde que seu nome apareceu nas primeiras acusações em maio de 2015. Warner foi apontado no último indiciamento dos Estados Unidos publicado segunda-feira e acusado de se aproveitar da sua posição para "se envolver em esquemas que incluem solicitação, oferta, aceitação, pagamento e recebimento de pagamentos ilegais, subornos e comissões".

Warner, que foi banido da Fifa enquanto esteve envolvido em um esquema de suborno à parte, afirmou em 2011 que a Fifa havia lhe concedido direitos com desconto na Copa do Mundo para ajudar Blatter a vencer as eleições da Fifa com o apoio de seu bloco caribenho. Blatter, presidente da Fifa de 1998 até sua queda, em dezembro de 2015, está cumprindo uma suspensão de seis anos que o impede de se envolver com todas as atividades relacionadas ao futebol.

O revés na acusação contra Blatter oferece mais um desagradável vislumbre de como os suíços estão lidando com o caso e sua relação com algumas das maiores federações esportivas no mundo, que optou por sediar-se no país dos alpes, conhecido por leis vantajosas de sigilo fiscal e bancário.

A decisão frustrou alguns ex-dirigentes de futebol que tiveram suas vidas viradas de cabeça para baixo depois de fornecerem provas aos investigadores suíços. Um ex-executivo sênior que forneceu detalhes às autoridades suíças disse que se sentiu decepcionado com o fraco desenrolar do caso. O ex-funcionário, que não foi acusado de qualquer irregularidade, disse que ele e outros ex-funcionários enfrentaram dificuldades para encontrar novos empregos por causa de seus antigos vínculos com a Fifa.

Houve muita controvérsia em torno das investigações suíças desde que começaram em 2015, mas ainda não resultaram em uma única condenação. Terabytes de arquivos foram apreendidos da sede da Fifa. Vários funcionários foram acusados de corrupção e algumas acusações foram feitas. Mas a incerteza e a confusão permanecem.

Muito disso decorre da recente decisão de censurar e recusar o procurador-geral da Suíça, Michael Lauber, de supervisionar as investigações de futebol após três reuniões não reveladas que ele teve com o atual presidente da Fifa, Gianni Infantino, para discutir o caso. "Em várias ocasiões ele não falou a verdade, agiu de maneira desleal, violou o código de conduta do Ministério Público Federal e obstruiu a investigação (disciplinar)", afirmaram autoridades suíças em uma decisão no caso no mês passado.

Isso resultou na redução do salário de Lauber em 8% por um ano. Ele está apelando da decisão. Seu advogado, Lorenz Erni, também representa Blatter em seu processo criminal. Na Suíça, isso não é considerado um conflito de interesses. Dois anos antes, Olivier Thormann, um dos principais investigadores da Fifa, foi forçado a deixar o caso depois de se tornar alvo de uma investigação sobre alegações de violação de sigilo, suborno e favoritismo ao lidar com investigações contra a federação esportiva. Thormann, que foi suspenso, foi inocentado de todas as acusações de irregularidades, mas continua fora do caso. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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