Andrew Boyers/Reuters
Kosovo depende de vitórias na repescagem para disputar pela primeira vez uma Eurocopa Andrew Boyers/Reuters

Kosovo depende de vitórias na repescagem para disputar pela primeira vez uma Eurocopa Andrew Boyers/Reuters

Sucesso no futebol faz Kosovo sonhar com mais reconhecimento da independência

Perto de vaga inédita na Eurocopa, país supera impasses diplomáticos com geração que cresceu durante guerra

Ciro Campos , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Kosovo depende de vitórias na repescagem para disputar pela primeira vez uma Eurocopa Andrew Boyers/Reuters

O Brasil pode ter nos próximos anos como adversário em uma Copa do Mundo um país europeu que sequer tem sua existência reconhecida por aqui. A curiosa situação tem chance de se tornar possível pois enquanto no futebol a seleção do Kosovo melhora a cada ano e está prestes a disputar pela primeira vez uma Eurocopa, na parte diplomática o reconhecimento internacional da independência do território da antiga Iugoslávia evolui mais lentamente.

Com quase 2 milhões de habitantes, Kosovo pode ser chamado de país por alguns governos e de província da Sérvia por outros tantos. As autoridades kosovares declararam a independência em 2008, decisão reconhecida até hoje por cerca de 110 países, mas não por nações como Brasil, Rússia, Argentina e China. O futebol local também sofre os reflexos dessa dificuldade. A federação local demorou quase dez anos para receber a permissão da Fifa para montar uma seleção.

Apenas em maio de 2016, o Congresso da Fifa votou e autorizou Kosovo a disputar as Eliminatórias para Copa do Mundo e Eurocopa. A vitória política abriu chance para a equipe viver agora uma fase mágica. De forma surpreendente, a nação está na fase final de repescagem para a Eurocopa e em março pode sacramentar a classificação inédita. Para isso, será preciso superar Macedônia do Norte e depois passar pelo ganhador de Geórgia e Belarus.

Estar às portas da Eurocopa com apenas 12 anos de independência leva o país a viver um êxtase. "Na verdade nós fomos além das nossas expectativas, porque nosso time é jovem e não esperávamos esse sucesso. Mas nós acreditamos no talento dos jogadores e no nosso trabalho", disse ao Estado o presidente da Federação de Futebol de Kosovo (FFK), Agim Ademi. "A cada partida sempre temos de 50 a 60 mil pedidos por ingressos que não podemos dar conta por nossa limitação no estádio", completou.

A euforia kosovar se alimenta do orgulho nacional de quem luta para ser reconhecido. O país passou por uma sangrenta guerra no fim da década de 1990, quando a antiga Iugoslávia entrou em colapso e países da região como Bósnia e Croácia conquistaram independência. Kosovo tentou lutar pelo mesmo motivo, mas viu o território ser bombardeado e famílias inteiras fugirem para outros locais.

O êxodo dos kosovares inclusive se reflete na seleção atual. Dos 23 convocados na última data Fifa, 14 nasceram em outros países. Trata-se de uma geração que cresceu em países como Suíça e Alemanha enquanto a terra natal era destruída. "Os pais desses jogadores foram importantes para manter neles o patriotismo e a identidade de Kosovo. Os jogadores se esforçam para manter viva a conexão com o país e escolheram representar nossa bandeira", afirmou Ademi.

Após entrar na Fifa graças ao apoio público de países e jogadores influentes, Kosovo agora espera que os bons resultados da seleção ajudem o país a ganhar respeito internacionalmente. "O nosso sucesso desenvolveu o desejo e orgulho da nação, por mostrar que você pode conquistar tudo o que quer. A cada jogo nosso é um feriado nacional. As vitórias do time são celebradas como se fossem uma conquista de todo os kosovares", explicou o presidente da FFK.

O destaque da seleção é o artilheiro Vedat Muriqi, do Fenerbahçe, da Turquia. O jogador mais famoso é o meia Valon Berisha, da Lazio.

ATRITOS

Na campanha das Eliminatórias para a Eurocopa 2020, a equipe enfrentou uma situação insólita na partida contra Montenegro. Como o rival não reconhece a independência, o clima antes do jogo ficou tenso porque o treinador da equipe, Ljubisa Tumbakovic, e mais dois jogadores de origem sérvia se recusaram a participar da partida. Pela atitude, o técnico foi demitido dias depois.

Em 2015 o Brasil foi o pivô de um imbróglio diplomático com a nação balcânica. Segundo a BBC, a então presidente kosovar Atifete Jahjaga cancelou a vinda para participar de um evento global sobre mulheres em São Paulo após o visto dela emitido pelo governo brasileiro constar como registro a nacionalidade sérvia, informação tida como ofensiva.

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Kosovo ganhou primeira medalha de ouro olímpica em país que não o reconhece

País europeu tem a história esportiva marcada pelo Jogos do Rio, onde comemorou feito no judô

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

06 de janeiro de 2020 | 04h30

Apesar de não ter ligações diplomáticas com Kosovo e de sequer reconhecer a independência, o Brasil está marcado na história do país. Foi nos Jogos Olímpicos do Rio que a nação conseguiu disputar pela primeira vez o evento e ainda teve chance de comemorar a conquista de uma medalha. Coube à judoca Majlinda Kelmendi ganhar o ouro na categoria até 52 kg e se transformar em um símbolo do país.

Kosovo foi aceito pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2014 e saiu da primeira Olimpíada de sua história com muito a se orgulhar. A delegação enviou apenas oito representantes ao Rio. "Essa medalha significa muito para as pessoas, principalmente as crianças. Elas olham para mim como uma heroína e, agora, sabem que mesmo sendo de uma nação que sobreviveu à guerra e um país pobre, se elas querem ser campeões olímpicos, podem conseguir", afirmou Majlinda após o ouro.

A judoca é retratada em vários painéis e grafites nas ruas da capital kosovar, Pristina. O outro ídolo local é do futebol. O ex-atacante Fadil Vokrri presidiu a federação local de futebol por dez anos e foi um dos grandes articuladores da batalha nacional pelo reconhecimento da seleção. Após morrer vítima de um ataque cardíaco em 2018, ele passou a batizar o principal estádio do país.

Quem é brasileiro e mora em Kosovo diz admirar o patriotismo local e o tratamento com os ídolos. O atacante Jean Carioca está há um ano e meio no país e é um dos destaques do Feronikeli, onde já conquistou três títulos. "É um país que está se abrindo pro mundo. Torço para que o reconhecimento internacional aumente e para que o país cresça. O povo é sofrido, encarou muitas guerras e é patriota demais. Eles defendem o país com unhas e dentes."

Para Jean, depois da medalha de ouro de Kosovo nos Jogos do Rio, o povo vive uma obsessão pela chance de ver o país na Eurocopa. "O esporte mexe com Kosovo. Jogo de futebol é sempre uma euforia. Eles vivem uma ansiedade pela chance de ir para a Eurocopa. Nos últimos jogos a equipe tem atuado muito bem. O estilo de jogo é brigador e de muito contato físico.

Análise*

'Futebol pode fazer o Kosovo ser mais famoso, como foi com a Croácia'

O futebol em Kosovo sempre foi muito popular, mas oportunidades para evoluir sempre foram muito limitadas. O país encarou por anos um colonialismo da Sérvia e o desenvolvimento do esporte não foi prioridade, apesar de termos jogadores que atuaram no futebol italiano nos anos 1930 e 1940. Nossos clubes estão evoluindo, porém ainda não estão no mesmo nível da nossa seleção.

O ponto forte do time atual é o ataque. A postura é sempre ofensiva. Como muitos dos nossos jogadores nasceram em outro local, aprenderam futebol nos seus países de nascimento e trouxeram para Kosovo essas qualidades variadas. Há um grande otimismo no país pela vaga na Eurocopa. O futebol pode fazer nosso mais ser mais famoso e reconhecido. A Croácia não era tão popular, mas depois de chegar à final da Copa, todos falam dela.

Nós não temos tantos problemas com países da antiga Iugoslávia, mas estamos acostumados a ver as torcidas adversárias serem desrespeitosas. A última vez em que enfrentamos a República Checa, a torcida deles levou cartazes com a frase: "Kosovo é Sérvia". Isso foi um absurdo.

*Uran Krasniqi, jornalista da Rádio e Televisão de Kosovo (RTK)

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