Surpreso com demissão no Santos, Oswaldo diz ter ficado magoado

Surpreso com demissão no Santos, Oswaldo diz ter ficado magoado

Oswaldo de Oliveira pretende voltar a trabalhar como técnico em janeiro. O ex-técnico do Santos recusou propostas tão logo deixou o time da Vila, em setembro. Oswaldo disse que ficou magoado e surpreso com a demissão. No Santos, ele enfrentou um problema que havia vivido no Botafogo: atraso de salários. "Nunca pagaram normalmente, sempre atrasou", disse ele em entrevista exclusiva, por telefone, ao Estado. Três meses de salário e a rescisão contratual ainda não foram pagos.

Entrevista com

Oswaldo de Oliveira

Vítor Marques, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2014 | 05h00

Descansando no Rio de Janeiro, o técnico falou das dificuldades do Botafogo, da sua preferência por trabalhar com jovens jogadores e do momento da seleção e do futebol brasileiro após a queda nas semifinais da Copa do Mundo e do recomeço de trabalho de Dunga à frente da Amarelinha. "A gente vem trocando filosofia, de treinador, há bastante tempo. Nem o ciclo da Copa de 4 anos é respeitado." A seguir os principais trechos da entrevista.

O que o futebol brasileiro aprendeu ou deveria ter aprendido depois dos 7 a 1? Como você analisou as críticas ao futebol brasileiro?

Aprendi com o Maracanazo de 1950 que as coisas têm que acontecer e se desenvolver para que todos tenham uma visão importante. Isso está acima de interpretar as coisas como lição. Quando o Brasil ganhou Copa das Confederações, todo mundo, passou a considerar a seleção favorita a ganhar a Copa. Por motivos óbvios. Ganhou da Espanha com autoridade e jogando um futebol atual e competitivo. Só que passou um ano até a Copa e só aí sentimos como as coisas no futebol brasileiro são mal-arrumadas. A gente vem trocando filosofia, de treinador, há bastante tempo. Nem o ciclo da Copa de 4 anos é respeitado.

Mas a impressão que ficou pós-Copa é que a Alemanha jogou um outro futebol...

Mas se pensarmos de forma racional, vamos chegar à conclusão que não. É só olhar a trajetória da Alemanha na Copa do Mundo. A Alemanha levou 120 minutos para ganhar da Argélia. E foi ameaçada o tempo todo. Claro que a Argélia nem se compara com o Brasil e que a Alemanha não entrou tão preparada como quando entrou contra o Brasil. O que eu quero dizer é que a gente não respeita o ciclo. Não era a diferença do futebol que a Alemanha joga, nossos jogadores jogam na Alemanha, na Itália, na Espanha, na França. Não é essa a diferença. A diferença é a maneira como nos preparamos tudo, além da carga emocional, que foi muito grande. Está muito cedo ainda. Eu estou te falando do Maracanazo. A gente ainda vai levar muito tempo para perceber tudo que aconteceu.


O Felipão também não teve um ciclo em 2002 e foi campeão do mundo.

Mas aí ele tinha Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, era um timaço. Por isso que eu digo: o futebol está passando por uma transição. É lógico o craque faz diferença, Cristiano Ronaldo e Messi pilotaram suas seleções e não ganharam de jogadores de um palmo abaixo deles. Os alemães é que ganharam, eles se reuniram em volta de uma filosofia de jogo.

Falando sobre categorias de base, tem técnico que não gosta de trabalhar com jogador jovens?

É difícil falar dos outros, falo por mim, gosto de trabalhar com jogador bom, independente da idade. Gosto de trabalhar com jovem porque ele normalmente é mais acessível, tem mais vontade de apreender e se expõe mais que alguns jogadores que mais estabilizados. Ficou essa marca no meu trabalho. Quando um jogador jovem amadurece e passa na frente de outros é uma coisa empolgante porque você está descobrindo um valor. Ele iria fatalmente aparecer, mas como você tem essa forma de trabalho, e ele aparece antes do tempo previsto.

Você comandou o Botafogo por duas temporadas. Como o Botafogo chegou a situação de extrema crise financeira?

Se não fosse o caso do Engenhão, a situação estaria como a da maioria dos clubes brasileiros. A dificuldade financeira é uma questão estrutural, mais longa. Acho que o Botafogo já tinha problemas financeiros. Quando perdeu o Engenhão tudo se agravou, porque toda a estrutura do futebol do Botafogo girava em torno do Engenhão. O estádio supria o Botafogo no aspecto financeiro, no marketing, e na estrutura do futebol. Isso agravou muito, que já era a situação ruim.


Como é treinar um time de Série A em que os jogadores não recebem salários? Você não recebia salários em dia...

É muito difícil, mas depende muito do que você tem, por sorte tínhamos um grupo muito bom, muito maduro e foi fácil de convencê-los de que se nós não vencêssemos, se não fossemos bem-sucedidos, a situação se agravaria muito mais. Parti desse princípio, tentei coordenar as coisas voltando para o objetivos que nós tínhamos (foi campeão carioca e conseguiu vaga na Libertadores). E o tempo todo os salários estavam atrasados.


Você também teve problema no Santos? Você ficou surpreso?

Muito surpreso, claro, porque inclusive um dos argumentos do Santos para que eu fosse para lá era que no Botafogo eu tinha três meses de salários atrasados e isso no Santos não acontecia. Isso me surpreendeu muito, sim.

Você ficou quantos meses sem receber salários no Santos?

Eu estou sem receber ainda, o Santos não me pagou três meses de salários de atrasados, mais a rescisão contratual (Oswaldo foi demitido dia 2 de setembro), ainda não recebi.

O atraso aconteceu nos meses que antecederam a demissão?

Não, nunca pagaram normalmente, sempre atrasou. Nem o primeiro salário eu recebi em dia no Santos. Dava dois (meses), aí quando chegava no terceiro, eles pagavam um (mês), para você ter uma ideia, o último salário que eu recebi foi em maio e eu saí em setembro. Não falam nada, já pedi, já liguei, dizem que não tem dinheiro.

Você ficou revoltado, magoado com a maneira que saiu do clube?

Magoado, sim, revoltado, não. Realmente foi surpreendente, o trabalho vinha sendo desenvolvido, todo mundo sabia que estava acontecendo. Fiquei muito magoado e muito surpreso.

Afinal, o que aconteceu com o Leandro Damião?

Fiquei pouco tempo, não o conhecia bem, é um jogador que em suma sentiu demais o peso da transação, isso é que eu acho, foi muito badalado, só se falava nisso, havia a expectativa antes de ele estrear e coincidiu com o bom momento do Gabriel. É um jogador de grande aproveitamento no Inter, com passagem na seleção, e infelizmente até hoje não rendeu o que se esperava dele.

Depois que você saiu do Santos, você foi procurado por outras equipes?

Imediatamente após me procuraram, mas eu preferi parar um pouco, agora tem acontecido sondagens, tem um clube japonês, um dos Emirados Árabes, mas eu só vou trabalhar mesmo em janeiro, a não ser que algo excepcional aconteça, eu preciso trabalhar já que o Santos não me paga...eu pago minhas contas... a luz, o gás, o telefone, a gasolina, o condomínio.

Você é cotado para assumir o Corinthians em 2015. Gostaria de voltar ao clube?

Olha, o momento é inadequado para falar essas coisas, o Campeonato Brasileiro está em andamento, eu não acho legal falar desse assunto, tenho uma ligação com o Corinthians, gosto muito, mas isso não quer dizer que eu vá voltar ao Corinthians. O Mano está lá, está fazendo o trabalho, acho que não é adequado falar esse tipo de coisa.

Qual Corinthians foi melhor: o seu, que ganhou o Mundial em 2000, ou o do Tite, em 2012?

Eu não acompanhei de perto a trajetória do time de 2012 porque eu estava no Japão. Vi o Corinthians jogar e acho que é um time muito bom o do Tite, mas acho que os valores individuais do time de 2000 eram melhores.

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