Suspeita de propina envolve a seleção brasileira de futebol

Suspeita de propina envolve a seleção brasileira de futebol

Empresa que detém direitos dos amistosos da CBF aparece em lista levantada por consultoria de um esquema de corrupção no futebol

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 08h00

A empresa que detém todos os direitos sobre a seleção brasileira até 2022, a ISE, está na lista dos suspeitos de formar parte de um megaesquema de distribuição de propinas no futebol.

Num informe interno da consultoria PriceWaterhouse Coopers (PwC), a ISE aparece como tendo pago, em uma operação de lavagem de dinheiro, US$ 14 milhões a Mohamed Bin Hammam, ex-candidato do Catar para a presidência da Fifa e que foi suspenso do futebol por denúncias de que tentou comprar votos das federações nacionais para as eleições de 2011.

Bin Hammam era um amigo próximo de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, que nunca negou que votou pelo Catar para a Copa de 2022. No momento da auditoria, Bin Hammam era ainda o presidente da Confederação Asiática de Futebol e foi justamente a avaliação realizada na entidade que revelou as transferências suspeitas entre a ISE e o cartola.

No mesmo informe, o ex-cartola da Fifa, Vernon Manilal Fernando, e associado a Bin Hammam, é citado como tendo distribuído mais de US$ 4 milhões em propinas. Isso fez com que o caso chegasse em 2013 ao juiz da Fifa responsável por investigar casos de corrupção, Hans-Joaquim Eckert. O alemão suspendeu Fernando por oito anos de toda atividade do futebol. Apesar do sigilo da investigação, Eckert confirmou ontem ao Estado a pena ao cartola.

PARAÍSO FISCAL

O primeiro contrato assinado pela ISE com a CBF é datado de 2006. Pelo acordo, a ISE fica com a responsabilidade de organizar os amistosos da seleção e pagar um cachê à CBF. A renda de bilheteria e venda de direitos de imagem ficariam para os sauditas. Em 2011, Teixeira ampliaria o contrato até 2022, semanas antes de abandonar o cargo na CBF.

DESCONFIANÇA

Um dos contratos obtidos pelo Estado sobre as relações comerciais dos amistosos do Brasil revela que a pessoa que assinava em nome da ISE era Moheydin Kamel. Mas seu endereço era uma caixa postal em George Town, no paraíso fiscal das Ilhas Cayman.

Na auditoria preparada pela PriceWaterhouse Coopers (PwC), US$ 2 milhões teriam sido pagos pela ISE em 2008 para o uso pessoal de Bin Hammam. Além disso, a Al Baraka Investment - empresa relacionada à ISE - pagou mais US$ 12 milhões para Bin Hammam.

O que gerou a suspeita é que o dinheiro transferido entre as empresas e Hammam passou justamente pelas contas da Confederação Asiática. "É incomum que recursos (especialmente no montante detalhado aqui), que aparentemente eram de benefício pessoal de Bin Hammam, fossem depositados a uma conta bancária de uma organização", indicou a auditoria.

"Nossas investigações indicam que Mohyedin Saleh Kamel, o vice-CEO do Grupo Dallah Al-Baraka pode ter sido (de 2005 a 2009) o gerente da ISE", constatou a PwC.

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