FOTO ALEX SILVA/ESTADAO
FOTO ALEX SILVA/ESTADAO

Suspeitas põem CBF e árbitros na berlinda

Uso do sistema de rádio é restrito à arbitragem, mas casos como o do dérbi reacendem debate sobre interferência externa

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2018 | 06h00

“Por que demorou tanto?”. “Com quem ele está falando pelo rádio?”. “Será que alguém viu na TV e o avisou?” Se você acompanhou a final do Campeonato Paulista entre Corinthians e Palmeiras disputada no último domingo, certamente se fez uma ou todas essas perguntas durante os sete minutos que separaram os instantes em que o árbitro Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza marcou pênalti de Ralf em Dudu e voltou atrás, assinalando apenas cobrança de escanteio.

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A indecisão da equipe de arbitragem somada à demora retomaram uma velha discussão: afinal, há interferência externa sobre os homens do apito ou não?

Quem tem de zelar pela lisura da arbitragem argumenta ser impossível alguém de fora mandar mudar uma decisão após acompanhar o replay pela TV, por exemplo. A tal interferência, no caso, viria somente dos bancos de reservas das equipes e, é claro, da pressão dos torcedores nas arquibancadas.

“Hoje, todos têm informação rápida, têm a imagem quase que imediata ali à mão. O quarto árbitro está ao lado dos bancos, começam a gritar com ele, então, o que existe é esse tipo de coisa que chega ao ouvido do árbitro”, diz o presidente da Comissão de Arbitragem da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Marcos Marinho.

Por outro lado, pensar que as normas são cumpridas em 100% dos casos beira a ingenuidade quando se tem episódios como o ocorrido no Brasileirão de 2016, durante o Fla-Flu válido pelo segundo turno. Na ocasião, um gol do Fluminense anulado pelo árbitro Sandro Meira Ricci resultou em 13 minutos de paralisação, duas mudanças de decisão e interferência explícita do inspetor de arbitragem daquela partida, Sérgio Santos, que entrou no gramado em meio à confusão para avisar o juiz que a TV mostrara o lance.

É o tempo gasto em situações assim, principalmente, que alimenta a polêmica.

“A nossa orientação é para que as decisões sejam muito rápidas, não podem passar de 20 segundos. Ou é ou não é. Depois, dane-se se errou ou acertou. Porque, infelizmente, (a demora) vai gerar desconfiança”, explica Marinho.

Anderson Daronco, um dos principais árbitros do País atualmente, cita caso ocorrido na Copa do Brasil de 2015, quando anulou gol do santista Gabigol contra o Figueirense. Um de seus assistentes chegou a correr para o meio-campo, validando o gol, porque não viu o toque na bola do atacante, em posição de impedimento. Após conversarem, chegou-se à conclusão de anular mesmo a jogada. Naquela ocasião, também se aventou a possibilidade de interferência externa no lance.

“Toda vez em que você demora um pouco mais que o normal para tomar uma decisão, infelizmente, as pessoas acabam tendo essa análise. Parece que muitas vezes preferem que a arbitragem erre do que acerte uma decisão com um pouco mais de tempo para ser tomada.”

Ruído no apito – Desde 2012, dois novos acessórios passaram a figurar na vestimenta do trio de arbitragem no Brasil: um radiocomunicador e um microfone. Além do árbitro principal e dos dois “bandeirinhas”, recebem o equipamento o quarto árbitro e, no caso de partidas do Brasileirão, os dois adicionais que ficam atrás dos gols.

São aparelhos simples que utilizam um circuito fechado, ou seja, não há, em tese, como um artefato externo invadir a frequência – o que possibilitaria a alguém além do campo se comunicar com quem está lá dentro (veja detalhes na arte ao fim deste texto).

“Diferentemente dos rádios comuns de comunicação, os aparelhos são configurados e criptografados para cada partida, impedindo qualquer tipo de acesso externo à frequência ou interferências”, garante a Federação Paulista de Futebol.

Apesar de o rádio possuir um filtro redutor de ruídos, a comunicação pode se tornar um problema diante de um estádio muito lotado, por exemplo.

“Tem de por a mão, parar, tapar o outro ouvido, para conseguir escutar. Em casos como o de domingo, não adianta, tem de falar cara a cara”, comenta Guilherme Ceretta, ex-árbitro dos quadros da FPF e da CBF.

Mesmo tendo autonomia para ajudar o árbitro principal, os auxiliares são orientados a interferir em lances capitais apenas se notarem um erro grosseiro na sinalização, como foi o caso do dérbi, quando o quarto árbitro, Adriano de Assis Miranda, informou que o toque de Ralf havia sido na bola.

“Houve uma falha de procedimento do quarto árbitro, que precisaria ter tomado uma atitude mais firme ao passar a informação. Houve um vacilo nessa hora. Aí, começa a reclamação, você não consegue nem andar no campo”, diz Marinho.

Enquanto a CBF não implementa de vez o árbitro de vídeo, o futebol no País segue produzindo casos que, no mínimo, deixam a todos com uma pulga atrás da orelha. Por indecisão ou má-fé, quem perde com tudo isso é o próprio esporte.

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