Sergei Karpukhin/Reuters
Sergei Karpukhin/Reuters

Tá russo! 50% dos operários são da ex-URSS - e o preconceito é grande

São homens e mulheres que deixaram Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Usbequistão para tentar uma vida melhor em Moscou

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2018 | 04h00

Boa parte dos taxistas, garçonetes, faxineiras, operários da construção civil, entre outros, tem algo em comum em Moscou - são imigrantes de países que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). São homens e mulheres que deixaram Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, países da Ásia Central para tentar uma vida melhor em Moscou e em outras grandes cidades do país, mas se sentem discriminados por parte da sociedade russa. 

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“Vocês pelo menos falam com a gente”, diz Meiria, uma garçonete cazaque de um restaurante pertinho da Praça Vermelha. Mas, espere um pouco. Como assim, “falam com a gente”? “Os russos são rudes. Acho que eles não nos querem aqui. Mas, sem nós, não haveria gente neste tipo de trabalho, porque para eles isso é um subemprego. Para mim, não. Estou juntando dinheiro, estudando. Quero trazer minha família. Onde eu nasci nós não temos nada, nem perspectiva”, conta a garota de apenas 21 anos, mas que chegou em Moscou há quatro anos, estuda na Universidade Estadual da capital e ainda faz cursos de idiomas, inglês e espanhol.

De acordo com dados divulgados pelo Comitê Organizador da Copa do Mundo da Rússia, cerca de 50% dos operários que trabalharam na construção das arenas usadas no mundial são trabalhadores imigrantes. Em todo o país, eles chegam a 11 milhões e correspondem a 15% da mão de obra, em números de 2016.

O problema relatado por Meiria ganha corpo com acesso aos números de uma pesquisa realizada em 2017 pelo Instituto Levada, uma organização independente. De acordo com esses números, quase 70% dos russos não veem com bons olhos a imigração de pessoas de países da ex-URSS para a Rússia e ainda desejam a criação de barreiras, físicas e operacionais, para impedir a entrada dessas pessoas no território russo. 

 

E essa rejeição é visível em um simples almoço em um restaurante da região central de Moscou - russos se vestem melhor, vivem e circulam apenas pelo centro da capital. Os imigrantes vivem em lugares mais afastados e formam a maior parte da mão de obra especializada, cujos empregos são capitaneados pelos imigrantes dos países da Ásia Central. 

O estudo apurado pelo instituto Levada mostrou ainda que 32% dos russos enxergam esses trabalhadores como pessoas “mal-educadas e capazes de realizar apenas trabalhos não qualificados”. Para 28% dos entrevistados, esses imigrantes “são infelizes e forçados a suportar dificuldades extremas”.

Quase 50% dos entrevistados disseram ser neutros em relação aos imigrantes de países como Tajiquistão, Quirguistão e Usbequistão, e 38% demonstraram uma atitude negativa em relação ao povo que vem da Ásia Central.

A semelhança física ajuda o povo russo a aceitar melhor imigrantes da Bielo-Rússia e Ucrânia e 25% dos entrevistados afirma “sentir empatia” com o povo dos dois países. Além disso, os russos também gostam dos sérvios, um dos países da ex-Iugoslávia. Essa amizade foi demonstrada na Copa do Mundo. Na partida entre Brasil e Sérvia, torcedores sérvios que não tinham ingressos e foram assistir à partida na Fan Fest da cidade foram recepcionados pelos russos. Entre os abraços, os gritos de “Sérvia, Rússia - para sempre somos irmãos”.

Entre os cinco países da Ásia Central que fizeram parte da URSS, o Quirguistão é o mais pobre do continente. No país, nada menos do que 43% da população vive abaixo da linha da pobreza. Que o russo de Moscou seja menos xenófobo após o fim do Mundial. 

*GLAUCO DE PIERRI É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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