Darren Staples/Reuters
Darren Staples/Reuters

Tá russo! A saga da feijoada russa

Vale tudo para matar as saudades (gastronômicas) de casa

Almir Leite*, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2018 | 04h00

Um mês de estrada, passagens por Londres e Viena, chegada na Rússia, viaja daqui, viaja dali... O tempo vai passando e a saudade do arroz e do feijão começa a aparecer. Como fazer? O jeito é procurar.

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Na Rússia, arroz ainda dá para a gente encontrar de vez em quando. Mas feijão, a impressão é de que nem sabem o que é. Quando se pronuncia a palavra, ainda que em inglês, beans, é como se estivesse falando de uma coisa de outro mundo.

A vontade ia aumentando, até que, na chegada a Moscou, uma boa notícia. Na capital da Rússia tem um restaurante brasileiro. Deve ter até mais de um, mas a recomendação foi para um deles, especificamente. Lá tinha feijoada e coxinha.

Dia longo de trabalho terminado, é hora de matar a saudade. Vamos ao tal restaurante. Lá chegando, a má notícia. “The kitchen is closed”, avisa a garçonete, depois de esperar a turma sentar, já com água na boca, imaginando o feijão. Decepção total. Cerveja, avisa a garçonete, se podia beber até o meio da madrugada, pois o bar não estava “closed”. Mas o feijão quer é bom...

O jeito foi comer um kebab para matar a fome e ir para o hotel frustrado, com a perda da oportunidade de ouro de comer um feijão em plena Moscou. Ainda mais quando se tinha conseguido saborear feijoadas em cidades como Colônia, Pequim e até Sheniang, no interior da China.

Aliás, a feijoada de Sheniang é histórica, pois a brasileirada que seguia a seleção de Dunga na Olimpíada de 2008 um dia se reuniu com uma saudade em comum: a do feijão. Daí para invadir um supermercado, achar feijão, pertences de porco – ou algo parecido – e couve não custou muito. Faltava só o local para fazer a “feijuca”. Convencemos um italiano que tinha uma cantina na cidade a nos ceder a cozinha e foi aquela festa, para 40 e poucas pessoas – delas, só o italiano e sua namorada chinesa eram estrangeiros.

Bom, mas a feijoada chinesa e as alemãs – em Colônia, fizemos uma no almoço e outra no jantar – não importam. O que interessa é o presente. E a tal “feijuca” russa, que não foi consumida na primeira tentativa. Mas nada como ser persistente. Se na primeira noite não deu certo, o jeito foi tentar na noite seguinte, mais cedo. Assim, às 22 horas em ponto lá estava eu no restaurante brasileiro – que de brasileiro tem pouca coisa além da feijoada e da coxinha. Caipirinha e brigadeiro entre elas.

 

Desta vez, foi um garçom que nos atendeu, também em inglês – acho que a turma que trabalha no restaurante brasileiro não sabe nem falar “bom dia” em português. Nem foi preciso olhar o cardápio.“Feijoada!”, foi o pedido. 

Ela veio rapidamente. Já montada, no prato. Arroz, feijão preto com um pedaço de toucinho, farofa mais branca que pele de russa, pedaços de laranja e... alface. Isso mesmo! Não perguntei, mas acho que na dificuldade de encontrar couve...

Claro que não se pode chamar aquilo de feijoada. Mas também não custa nada ter um pouco de boa vontade. Mesmo porque o feijão, sem caldo, tinha gosto de feijão. Mas a alface...

Tudo bem, até porque no telão do restaurante estava passando o sufoco que a Argentina passava contra a Nigéria. E entre uma garfada e outra, foi divertido ver os outros clientes, quase todos brasileiros, torcendo contra Messi. E quando os nigerianos fizeram o gol de empate, no bar brasileiro em Moscou parecia comemoração de gol da Rússia. Gritaria geral, alegria total. Pena que depois o juizão não deu aquele pênalti para os africanos... E que o horroroso, mas sempre sortudo Rojo fez o gol que classificaria os hermanos.

Mas nada disso abalou a feijoada. O prazer de comer feijão depois de um mês de estrada torna a pessoa menos exigente. Mas aquela alface...

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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