Gleb Garanich/Reuters
Gleb Garanich/Reuters

Tá russo! As aventuras de pegar um táxi na Rússia

Alugue um carro, contrate um serviço de motorista, recorra a aplicativo, use o metrô... Faça qualquer coisa, mas não entre em um táxi

Almir Leite, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 05h00

Um dos primeiros conselhos que alguém recebe quando fala que vai à Rússia é: evite pegar táxi, principalmente em Moscou. Alugue um carro, contrate um serviço de motorista, recorra a aplicativo, use o metrô... Faça qualquer coisa, mas não entre em um táxi, principalmente no meio da rua. É roubada. 

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O perigo representado pelos sempre espertalhões motoristas de táxi russos - que têm fama pior, mas bem pior, que seus colegas de profissão de algumas capitais brasileiras - foi, e ainda é, alvo de muitas reportagens na imprensa nacional. Mas será que os taxistas são tão vigaristas assim no país-sede da Copa do Mundo? Muitos são, outros tantos não. O problema é que você não sabe quem é “boa alma” e quem não é. Então, como às vezes é inevitável recorrer a um táxi, o negócio é contar com a sorte (rezar talvez ajude). E ter bom humor.

Para pegar um táxi, seja no aeroporto, num ponto turístico, na porta do hotel (algumas vezes requisitado pelo próprio hotel), no meio da rua, ou em qualquer outro lugar, é preciso estar preparado para conviver com algumas regras. A primeira é: taxista tem pé pesado (o que não é vantagem da classe, pois todo motorista russo acha que é Ayrton Senna). A segunda: eles têm veneração pela buzina. A terceira, decorrente da segunda: paciência não é o forte de nenhum deles.

Se o taxista fuma, vai fumar enquanto te transporta. E não adianta pedir para apagar o cigarro, o cara vai se fazer de desentendido. Se gosta de música alta, vai deixar o volume no talo. E se ele tiver algo a fazer no caminho, vai dar uma paradinha.

 

Dia desses, um taxista (que pelo jeito é bom filho) deu carona para a mãe enquanto transportava um jornalista brasileiro. Um outro, quando levava a equipe do Estado para o aeroporto de Sochi, fez um pit stop para entregar um envelope a uma senhora.

Era sua esposa, e o envelope tinha dinheiro para pagar não sei o quê.

Há exceção quando se trata de motoristas velozes. Em Rostov, o profissional que levava a equipe do aeroporto ao hotel, em viagem de mais de uma hora, feita à noite por uma estrada no meio da floresta, vez ou outra parava o carro, pegava o celular e conversava com alguém. Como ninguém sabe russo e não passava nenhum carro, rolou uma certa apreensão. Mas, no fim, tudo acabou bem.

Um jornalista de outro veículo, porém, não teve a mesma sorte. Ficou refém por cinco minutos, no meio do mato, porque o taxista queria receber mais do que havia combinado. Recebeu. Combinar o preço às vezes diminui o prejuízo. Mas a corrida sempre, repito sempre, sairá mais cara do que deveria. 

E há situações em que o preço é tabelado. Exemplo: mil rublos (R$ 60) por uma corrida de pouco mais de 3 quilômetros em Sochi, a partir do estádio, depois de um jogo à noite. “Não adianta procurar outro, todos vão te cobrar o mesmo preço”, alertou o taxista. Ele sabia o que estava dizendo.

Pegar recibo é outra aventura. Resumidamente: há os que dizem que não tem e os que te dão opção do tipo: “Sem recibo é mil rubros, com recibo é 1.800”. E não adianta nem tentar entender por quê. Também há aquele que se faz de boa praça, enrola para dizer o preço da corrida e aproveita a pressa do passageiro para tentar extorqui-lo. Aconteceu em São Petersburgo, com um cara que disse ser do Usbequistão, fã do Real Madrid, bom de papo, mas, ao fim da corrida, pediu mil rublos por um trecho de menos de três quilômetros. Levou 400 rublos (R$ 25), ficou falando sozinho, mas certamente saiu no lucro.

Um outro, em Sochi, para mostrar intimidade abriu o porta-luvas e sacou um revólver. Começou a brincar com a arma enquanto ria das expressões assustadas e deu a letra: “Aqui é comum, todo taxista anda armado”. Pelo sim pelo não, a turma achou melhor pagar a quantia “solicitada” e abrir mão do recibo.

Mas é injusto falar que não há taxista prestativo na Rússia. Dias dessas, com a equipe atrasada para o embarque rumo a Samara, onde o Brasil enfrentou o México, a necessidade de chegar ao aeroporto em 10 minutos foi explicada ao “motora” - por gestos, evidentemente. Ele entendeu e chegou em oito num percurso que leva 20. Chegamos, e inteiros. Ninguém perdeu o voo nem a oportunidade de escrever esta coluna.

*ALMIR LEITE É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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