John Sibley/Reuters
John Sibley/Reuters

Tá russo! As mudanças políticas que o Mundial pode trazer à Rússia

Copa foi uma rara oportunidade de abertura do país ao mundo

Jamil Chade*, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2018 | 04h00

No dia da derrota da Rússia para a Croácia, pelas quartas de final da Copa do Mundo, uma chuva desabou sobre Moscou pela manhã. A água parecia lavar um espírito que havia sido criado pela cidade, nas ruas, entre famílias e mesmo policiais que, diante da emoção do futebol, se permitiam sair da rotina. Naquela manhã, depois da partida em que o país foi eliminada nos pênaltis, a Copa havia terminado para os russos. Agora, o Mundial está prestes a ser encerrado para o resto do mundo.

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Mas, nos rostos tristes da população e na volta da rotina, a decepção pelo fim da festa é a esperança que paira sobre ativistas de direitos humanos de que a Copa tenha chacoalhado uma população que, por duas décadas, se conformou com um mesmo governo. Arma de propaganda de Vladimir Putin, a Copa do Mundo é também agora a grande aposta da sociedade civil de que certas mudanças possam encontrar brechas para serem alcançadas.

O Mundial levou o governo a proibir qualquer tipo de manifestações. Houve censura na divulgação de boletins de polícia e os jornais proliferaram mensagens patrióticas.

Ao mesmo tempo em que isso ocorreu, no entanto, a presença de 700 mil estrangeiros criou uma nova realidade que os russos jamais tinham vivido. Foram tolerados encontros de grupos pelas ruas, o que em dias normais são dispersados diante do risco de que se trate de uma operação da oposição. As autoridades fizeram vistas grossas às bebidas pelas ruas, algo que também é proibido em épocas sem jogos.

Se não bastasse, o esforço que o Kremlin fez por mostrar que não viola direitos humanos permitiu algo impensável: a abertura de espaços “oficiais” para o debate de assuntos relacionados com minorias e LGBT.

 

“Obviamente que a grande questão que se coloca é como meter de volta à lâmpada o gênio que saiu”, disse Piara Powar, diretor executivo da entidade Fare, parceira da Fifa em assuntos relativos à discriminação. “Nossa esperança é de que esses espaços e avanços sejam mantidos pelos grupos locais.” Nem todos estão tão otimistas com o pós-Copa na Rússia. Grupos de ativistas que preferem não ter seus nomes revelados com medo de represálias temem que, depois do Mundial, uma onda ainda mais repressora seja instaurada por Putin, justamente se aproveitando do sistema de segurança criado para supostamente proteger o Mundial e seus turistas.

Mesmo durante a Copa, um evento que estava sendo apoiado pela Fifa e que tratava de homofobia sentiu na pele o que pode ocorrer na Rússia quando o assunto é considerado um tabu. Os organizadores do seminário tiveram sua reserva de salas num hotel de Moscou cancelados depois que a gerência do local entendeu que o evento iria tratar de homofobia.

Na Rússia, sem um só jornal realmente independente do poder que possa ser comprado nas bancas ou uma oposição legítima, a Copa foi uma rara oportunidade de abertura do país ao mundo.

Na prorrogação que começa agora, porém, o país verá uma luta entre aqueles que querem recolocar o gênio para dentro da lâmpada e voltar à rotina de um país controlado por Putin e aqueles que vão lutar para que as brechas de oxigênio sejam mantidas. 

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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