Dmitri Lovetsky/AP
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Tá russo! As ‘noites brancas’ são lindas, mas atrapalham o sono

Os dias quase eternos retratados pelo poeta Fiódor Dostoiévski inspiram São Petersburgo a viver uma época especial entre junho e julho

Gonçalo Junior, enviado especial / São Petersburgo, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 04h00

Na obra do escritor russo Fiódor Dostoiévski, o livro Noites Brancas representa uma pausa na crítica social e uma concessão ao romance. É uma história de amor na qual o personagem principal, triste e solitário, percorre as ruas de São Petersburgo e esbarra na jovem Nastienka. Esse encontro, que obviamente vai mudar a vida dos dois, acontece durante uma “noite branca”, fenômeno causado pela proximidade da cidade com o Círculo Polar Ártico. O sol começa a se pôr às 10 da noite, mais ou menos, mas nunca desaparece totalmente. Fica tudo meio claro, meio escuro. Poucas horas depois, começa a amanhecer. Os dias são longos criando um clima onírico, de sonho e realidade. 

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No livro, essa atmosfera também é uma personagem, pois interage com os protagonistas, pessoas comuns que refletem sobre o rumo de suas vidas. Vale a leitura ou até mesmo dar uma olhada nas várias versões para cinema e teatro. 

Os dias quase eternos retratados pelo poeta inspiram a cidade a viver uma época especial entre junho e julho. São Petersburgo fica cheia de apresentações de música e dança. As pessoas caminham à beira do Rio Neva para presenciar o espetáculo em que as pontes se abrem para a passagem de embarcações. Quem mora em Piter, como a cidade é chamada pelos mais íntimos, diz que é uma época de romance. Love is in the air.

Embora lúdicas e inspiradoras para os poetas, as noites brancas impõem desafios fisiológicos na danada da realidade de uma Copa. Como o céu noturno está sempre claro, é difícil dormir. A noite branca é linda, mas atrapalha o sono. Pronto, falei.

 

É até uma heresia colocar algo tão prosaico - o sono - diante de um fenômeno climático tão transcendental, mas acho que o poeta vai entender. O corpo fica meio desgovernado: ele não sabe se fica acordado, pois o tempo está claro como o dia; ou se vai descansar porque já deu a hora. 

E não há blackout que dê jeito. Nadia Khristova, guia turística que me ajudou a conhecer melhor esse tal de Piter, explica que todas as casas têm um filme protetor preto nas janelas, como o insulfilm dos carros, para espantar a claridade. Ela tem isso desde que se mudou, em 1995. 

Mesmo com os olhos vermelhos e essa espécie de embriaguez que a falta de sono causa, vale a pena se render ao sol que reaparece às três da manhã. As noites brancas realçam São Petersburgo como coração artístico e cultural da Rússia. Aqui é o lar do Hermitage, um dos maiores museus de arte do mundo, com um acervo que conta mais de três milhões de peças. O prédio, que era a morada do czar, é a construção mais alta.

Nenhum podia ser maior. A cidade foi fundada em 1703 por Pedro, o Grande, primeiro imperador russo. Ele queria construir um lugar que fosse uma espécie de janela para o resto da Europa. A face mais europeia da Rússia. Para isso, convidou arquitetos italianos para dar a cara da cidade. Prédios de estilos clássico, barroco e construtivista dos séculos 18 e 19 criam um museu a céu aberto. Tudo preservado e original. Existem vários canais que lembram Veneza e Amsterdã. 

Essa galeria de arte a céu aberto que é a cidade, com a moldura de dias quase eternos, está no clima de Copa. Da mesma forma que acontece o encontro das águas de um rio com as do mar, São Petersburgo vê o encontro dos turistas da Copa e os viajantes tradicionais. Eles se misturam e formam um só. São pessoas que ouvem atentas a explicações dos guias sobre uma escultura barroca do século 17, mas que não desgrudam da tabela dos jogos. Gente que quer descobrir, conhecer e aprender. Sobre a história, as artes, a vida e o futebol. Mesmo caindo de sono. Gente que descobre, ainda no primeiro dia de viagem, que esse Piter é um cara bem legal. 

*GONÇALO JUNIOR É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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