Murad Sezer/Reuters
Murad Sezer/Reuters

Tá russo! Avião na Rússia é um enorme exercício de paciência

Quando você finalmente se sentar e a viagem começar, terá duas preocupações. A maior delas é se a bagagem chegará ao destino correto

Ciro Campos, enviado especial / Kazan, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2018 | 04h00

Você, caro leitor, que reclama do atendimento das companhias aéreas brasileiras no Santos Dumont, acha ruim ter de pegar ônibus para chegar ao avião em Congonhas, fica de mau humor quando sabe do fechamento do aeroporto de Curitiba ou se desespera com a perda da conexão em BH achará que deixou o paraíso quando vier à Rússia. Trafegar pelo país da Copa é tão difícil quanto ler no alfabeto cirílico.

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Após quase um mês em aeroportos e na dependência do nada cortês atendimento das companhias russas, incorporei um estranho hábito local repetido a cada vez que o avião toca o solo no destino. Assim como outros passageiros, passei a aplaudir a manobra. É um alívio não só pela questão de chegada, como também pelo fim da necessidade de depender dos serviços de empresas pouco preocupadas com o consumidor.

Viajar de avião na Rússia é se deparar com costumes bem diferentes aos do Brasil.

Logo na chegada ao aeroporto, é preciso encarar um raio X. É aquela fila, inspeção de bagagem, retirar cintos e mostrar mochilas. O ritual será repetido outras diversas vezes, tanto para entrar na sala de embarque, como até para trocar de avião durante uma conexão, mesmo de pouco tempo de espera.

 

O problema maior para o turista vem depois. Já enfrentei por aqui situações inusitadas, como a dificuldade para se imprimir o simples bilhete de embarque, por exemplo. Se no Brasil você pode levar a passagem na tela do seu celular, na Rússia não vale. É preciso ter em mãos o papel, mesmo com o check-in realizado. 

Os funcionários da companhia aérea por qual viajei na última semana me indicaram três vezes para guichês diferentes simplesmente para conseguir imprimir um bilhete. Todos os atendentes não se comunicavam em inglês nem demonstravam disposição para ajudar a resolver uma simples pendência. Cansado de filas e de falta de informação, testei a sorte em um dos totens de atendimento automático. As primeiras telas, é claro, estavam em russo. Só depois de insistência e repetição consegui imprimir a passagem.

Ao pegar em mãos o valioso papel me deparei, no entanto, com outra atitude comum na Rússia: mudar o passageiro de voo sem a mínima explicação. Se você chegou cedo para decolar porque tinha algum compromisso na cidade de destino, fique preparado porque pode ser transferido para viajar três horas depois. Nesse período, é óbvio que o portão de embarque será alterado algumas vezes. Voos pontuais são raridade.

Quando você finalmente se sentar e a viagem começar, terá duas preocupações. A maior delas é se a bagagem chegará ao destino correto. Diversos colegas da imprensa brasileira que compartilham desta aventura na Rússia tiveram as malas extraviadas em voos com conexões. Alguns só receberam os pertences dias depois, quando já tinham até voltado para a cidade de origem.

A segunda preocupação é conseguir descansar. Os adeptos do cochilo nas poltronas não terão vida fácil nos trajetos aéreos na Rússia. Quando o serviço de bordo começa, todos os passageiros são acordados. Mesmo quem está roncando com a cabeça encostada na janela receberá um toque nos ombros vindo dos comissários para ver se aceita o lanche do dia.

Pelo menos no caminho dessas aventuras conseguimos viver também momentos curiosos. Na semana passada, encontrei em um voo o ex-goleiro americano Tony Meola, que jogou as Copas de 1990 e 1994. Atualmente comentarista nos Estados Unidos, ele reclamava dos maus serviços aéreos na Rússia e do atraso em um dos trajetos. Se até quem já disputou o Mundial dentro de campo encara esse perrengue, resta a nós ter sangue frio (e bem russo) para encarar essas dificuldades.

*CIRO CAMPOS é REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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