Rebecca Blackwell/AP
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Tá russo: com sua vida subterrânea, Moscou é, sim, encantadora

A Copa do Mundo trouxe para Moscou o sorriso no rosto. Nos primeiros dias, nenhum russo parecia ligar muito para o campeonato

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2018 | 04h00

De um lado, estações do metrô novas e reformadas, praças com prédios históricos e imponentes, novos edifícios que rasgam o céu russo, hotéis cinco-estrelas cheios de luxo, avenidas largas, carros que o brasileiro não está acostumado a ver nas ruas. Do outro, estações mais modestas, casas simples, tratores, galinhas nas ruas, um cenário do interior. Isso tudo dentro da mesma cidade, de uma megalópole, onde tudo parece ser distante e, ao mesmo tempo, encantador.

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O idioma é uma barreira e tanto. Quatro meses de aulas de russo me permitiram, ao menos, entender perfeitamente nomes de estações do metrô, cardápios, placas de trânsito. Mas entender o que as pessoas que vivem em Moscou dizem é tarefa para mais alguns meses de estudo e dedicação. 

A cada parada em uma estação do metrô, as primeiras palavras ditas pelos condutores são até compreensíveis, algo como uvajeine passajeiri, ou ilustres passageiros, numa tradução livre. São mais de 200 paradas do transporte na capital russa, numa gigantesca teia pelos trilhos que corta todas as regiões da cidade. Funciona bem, mas para alguns locais não é suficiente - são normais grandes caminhadas em Moscou, que possui ainda uma intensa vida subterrânea.

Andar, almoçar e viver debaixo da terra não é tão ruim como pode parecer. A primeira questão que aparece é o frio - poucos dias antes do começo do verão na Rússia, a temperatura na cidade às vezes não passa dos 5 graus. O vento que sopra gelado corta o rosto, deixa lábios, nariz e orelhas ressecados, endurece dedos e mãos.

 

Outra questão é manter-se vivo! Em algumas das principais avenidas de Moscou, é praticamente impossível atravessar a rua e chegar vivo ao outro lado. São até quinze faixas, nas duas mãos, para carros, motos e ônibus disputarem de forma feroz. Com os túneis para os pedestres, não há problema e o deslocamento é feito com segurança.

Os russos aproveitam bem esses espaços. Mercados, lanchonetes, lojas de departamento, de artesanato (as lojinhas que comercializam as famosas bonecas russas, as matrioshkas, estão sempre bem cheias de turistas), de artigos para telefones celulares, lembranças de Moscou. Vende-se de tudo debaixo da terra, principalmente nas estações do metrô que ficam mais próximas à imponente Praça Vermelha, pertinho do Kremlin, a sede do governo russo. Lá, inclusive, parada obrigatória nesses dias de Copa do Mundo é uma visita à Catedral de São Basílio, um dos cartões-postais mais conhecidos de Moscou.

Outro detalhe interessante que quem visita a capital da Rússia percebe é que a cidade realmente saiu da União Soviética. Pouca coisa na capital da bola, pelo menos até o final do Mundial, lembra o sistema que perdurou até o início dos anos 1990. Ela equivalente às grandes cidades do planeta - Nova York, Miami, Paris, Tóquio, Milão, Londres, Madrid, São Paulo e Rio de Janeiro. 

A Copa do Mundo trouxe para Moscou o sorriso no rosto. Nos primeiros dias, nenhum russo parecia ligar muito para o campeonato e dava para perceber a indiferença de quem vive na cidade com turistas e com tudo o que era relacionado ao campeonato. Com a chegada principalmente dos torcedores de seleções da América Latina, esse cenário mudou. Colombianos, peruanos, brasileiros, argentinos e mexicanos trouxeram na bagagem o bom humor, que contagiou até o mais carrancudo dos que vivem por aqui.

Pelo menos até o final do Mundial, Moscou deverá continuar contagiada com essa energia positiva que o torcedor do futebol traz com ele. Tomara que esse sentimento fique enraizado na cidade. Vai fazer bem para o povo russo deixar de ser tão frio - que o ar mais gelado fique apenas do lado de fora da janela. 

 

 

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