Sergio Perez/Reuters
Sergio Perez/Reuters

Tá russo! Copa leva Rússia ao futuro

Algumas reflexões a respeito do legado cultural deste Mundial

Ciro Campos*, enviado especial / São Petersburgo, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2018 | 04h00

A cada fim de ciclo, de ano ou de etapa, sempre paramos para refletir sobre o que se passou e passamos a avaliar aspectos positivos e negativos. A reta final da Copa do Mundo da Rússia oferece oportunidade parecida a quem, no meu caso, é estrangeiro, está há mais de um mês no país e, com menos partidas para acompanhar, tem tempo para pensar e apresentar conclusões a amigos e parentes que vão nos perguntar seguidas vezes daqui uns dias, quando retornarmos ao Brasil: “Como foi a Copa?”.

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Do aspecto futebolístico, não vou precisar comentar. Teve zebra, craques em baixa e seleção brasileira eliminada antes do previsto (infelizmente). Porém, o conteúdo mais marcante e que vou levar na memória após toda a habitual análise de fim de ciclo é a de uma Rússia dividida. O país da Copa mostrou para mim, assim como para outros colegas, ter um pé ainda na antiga fase da União Soviética e outro na globalização.

Após o fim do regime socialista, no início da década de 1990, a Rússia teve como primeiro evento esportivo de extensão nacional em seu território a Copa do Mundo. Embora tenha organizado também os Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, há quatro anos, as competições ficaram centralizadas somente na cidade-sede, e não espalhadas por 11 locais diversos, distribuídas em quatro fusos horários diferentes e com agenda de jogos ao longo de um mês.

Portanto, foi a primeira vez em muitos anos que regiões como Ecaterimburgo, na fronteira entre Europa e Ásia, tiveram competições de alto nível, ou que centros regionais como Rostov receberam a seleção brasileira, e vilarejos como a pacata Bronnitsy serviram de moradia para uma equipe como a Argentina ao longo de um torneio. A Copa rompeu as fronteiras e mostrou a muitos estrangeiros peculiaridades da Rússia.

 

Quem esteve no país durante a Copa notou bastante o lado fechado, desconfiado e conservador do russo, como também a hospitalidade de alguns. O instinto mais “soviético” e reservado está presente em momentos como a falta de vontade de se comunicar, a ausência de sorrisos e as preocupações extremas com segurança. A feição mais amável do país-sede se mostra em gestos mais simples, como o pedido de fotos quando sabem que você é brasileiro ou no esforço do taxista em mostrar que tem no carro músicas de nosso país para se escutar no rádio.

O comércio mostra bastante como é a Rússia dividida entre o passado da Cortina de Ferro e o presente com a globalização. Nas tradicionais lojas de souvenir, artigos que fazem referência à União Soviética, curiosamente, viraram os preferidos dos turistas capitalistas. Camisas e canecas com a foice e o martelo ou adornadas pelas letras CCCP são vendidas aos montes.

Há os que prefiram levar para casa as tradicionais matrioshkas com as caricaturas dos chefes antigos do país. Você tem em mãos inicialmente a figura de Lenin, quando abre ao meio tem Stalin. E por aí vai. O último é Mikhail Gorbachev – o último líder soviético é retratado em tamanho bem reduzido em comparação aos antecessores no comando.

A Copa do Mundo deixará na Rússia bem mais do que a história imortalizada pelos resultados e pelos craques em campo. A partir de agora, o país antigamente tão distante se tornou mais comum a milhares de turistas. O mesmo vale para a população local. Os russos, por anos muito fechados e alguns ainda resistentes ao contato com estrangeiros, abriram as portas de casa para o mundo e creio que, assim como eu, terão muitas reflexões positivas a se fazer sobre a maluca experiência de vivenciar o Mundial.

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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