Hector Retamal/AFP
Hector Retamal/AFP

Tá russo! Ecaterimburgo, a última fronteira

Cidade fica a 1.700 quilômetros da capital Moscou, entre a Europa e a Ásia

Gonçalo Junior, enviado especial / Moscou*, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2018 | 04h00

Quando era criança, demorei para aceitar que a Terra era redonda. Era mais fácil imaginar o mundo reto e lisinho como o mapa que eu abria na mesa azul da cozinha. Gostava de desdobrá-lo, face a face, até o mundo inteiro se abrir, com nomes que eu nem sabia pronunciar direito. Nessa Terra plana, eu ficava imaginando os locais lá na ponta, quase na bandeirinha de escanteio do mundo. Esse devaneio não é tão absurdo assim: lembro de desenhos animados em que o personagem cai no infinito quando chega à última fronteira. Na semana passada, visitei a última fronteira da Copa do Mundo da Rússia, a cidade mais distante da capital: Ecaterimburgo.

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Ela está distante 1.700 quilômetros de Moscou, quase duas horas de voo. Simbolicamente, faz a fronteira entre a Europa e a Ásia, os dois continentes pelos quais o território russo se esparrama – isso também me impressionava na infância. Por isso, Ecaterimburgo tem o apelido poético de “janela da Ásia”, pois é cercada pelos Montes Urais, fronteira natural entre europeus e asiáticos. É um lugar de transição e de passagem.

Isso influencia diretamente na alimentação, por exemplo. A comida russa fica mais saborosa com um toque oriental, como vietnamita e a chinesa, por exemplo. Até um simples cachorro-quente ficou diferente em uma lanchonete na qual os atendentes usavam bonés com uma estrela vermelha. Questão de tempero.

Duro é fazer o pedido no restaurante. Ninguém fala inglês e alguns não têm muita paciência para tentar se fazer entender. Atendimento com um sorriso? Uma experiência gastronômica? Por aqui, ainda não. Tudo é mais objetivo e direto, sem amabilidades. Não é errado, só diferente.

 

No ônibus e nas ruas, elas batem o olho na credencial que levo no peito e ficam tentando decifrar de onde venho. Ninguém pergunta. A Copa ainda causa estranhamento por aqui. O clima do torneio fica restrito ao entusiasmo dos estrangeiros. Esse é universal. Se a capital demorou a entrar no clima da Copa, a cidade que fica na pontinha do torneio deve ficar morna por mais algum tempo. A cidade receberá três jogos da fase de grupos: França x Peru, Japão x Senegal e México x Suécia.

Mas não perde seu charme por causa disso. A exemplo de Moscou, a cidade é um museu a céu aberto. Pela janela do carro, passa rapidamente a entrada da Igreja do Sangue em Honra de Todos os Santos Resplandecentes na Terra Russa. É o nome mais bonito que eu já vi de uma igreja. Ela se chama assim porque foi construída sobre o exato local da execução dos Romanov pelos bolcheviques, em 1918. Parênteses histórico: em 1918, a família imperial russa, liderada pelo czar Nicolau II, foi fuzilada pelo exército bolchevique. Foi um dos episódios mais sangrentos da Revolução Russa. Era o fim definitivo da monarquia e o início do período socialista.

Obviamente, não deu tempo de visitar a igreja. Em uma Copa do Mundo, os pontos turísticos são vistos apenas de relance, como uma espécie de couvert para que a gente volte em outra viagem. Com Ecaterimburgo foi assim. A Avenida Lenin, com seus impressionantes 4,6 quilômetros, corta toda a cidade e dá acesso às atrações principais.

Não deu tempo de chegar nem na metade. Fica para a próxima. O destino era a Arena Ecaterimburgo, palco de Uruguai e Egito. O estádio é lindo. As arquibancadas que ficam atrás dos gols não acompanham a curva da cobertura circular que protege a construção. Elas ficam fora, como um “puxadinho” cheio de charme.

A janela para a Ásia se fechou em pouco mais de 24 horas. Foi só um bate e volta, mas valeu a pena. Ecaterimburgo entra na lista de lugares que merecem uma segunda chance. Pelo pouco que mostrou e por aquilo que tentou esconder. 

*REPÓRTER DO ‘ESTADO’

 

 

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