Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Tá russo! Em Sochi, a praia é o passatempo preferido

Conhecida como Riviera Russa, a cidade é um bonito balneário no sudoeste do país

Marcio Dolzan, enviado especial / Sochi*, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 04h00

Uma das coisas que se descobre quando se vem à Rússia pela primeira vez é que não existe apenas uma Rússia, existem várias. E esse é um dos pontos que a aproxima do Brasil. São dois países enormes, com climas e culturas diferentes nas suas mais variadas partes. O que é comum num extremo do país pode não ser no outro. Por isso, é ao mesmo tempo tão fascinante e tão difícil entender um lugar, mas eu vou tentar mostrar o caminho das pedras.

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O colega Glauco de Pierri, por exemplo, que está cobrindo a Copa do Mundo para o Estado lá em Moscou, escreveu recentemente que, na capital do país, “a temperatura às vezes não passa dos 5 graus” e que “o vento que sopra gelado corta o rosto, deixa lábios, nariz e orelhas ressecados, endurece dedos e mãos”. Lembrou o meu Rio Grande do Sul.

Sochi, onde a seleção brasileira está baseada, não é nada disso. Conhecida como Riviera Russa, a cidade é um bonito balneário no sudoeste do país e, nesta época do ano, a temperatura tem batido nos 30 graus. Acho que em momento algum baixou dos 15, mesmo à noite. Até porque noite quase não existe por aqui: o sol se põe apenas depois das 20h e às 4h da matina já está dando as caras.

Nesse clima, o que mais se vê são famílias em direção à praia. A cena é quase sempre parecida: crianças carregando boias do tamanho de pneus e casais deitados à beira do mar... sobre pedras. Sim, as praias por aqui são de pouca areia (mais grossa que a que vemos no litoral brasileiro) e de muitas pedras. Nada que renda reclamação ou impeça as pessoas de estenderem uma toalha e deitar. Algumas até mesmo dispensam a toalha.

 

Quem não está disposto a tomar banho de sol sobre as pedras e correr o risco de ficar com um bronzeado de queijo suíço tem a opção de alugar uma das dezenas de tendas oferecidas. Elas contam com um sofazinho, serviço de bar, às vezes uma música ambiente e, claro, uma vista tranquila para o Mar Negro. Não vai ter bronzeado, mas vai ter paz e sossego.

E o trânsito? Em Moscou, contou o Glauco, “em algumas das principais avenidas é praticamente impossível atravessar a rua e chegar vivo ao outro lado”. Pois cruzar as bem cuidadas ruas e avenidas em Sochi é a coisa mais fácil do mundo. Praticamente todos os motoristas param quando alguém aparece próximo à faixa de pedestres, e desde que cheguei, há dez dias, houve um único caso em que essa regra não funcionou – e aí não funcionou mesmo, porque o motorista de um furgão desrespeitou três leis de trânsito em uma única tacada. Ele atravessou a faixa de pedestres para converter à esquerda com apenas uma das mãos ao volante, enquanto a outra segurava o celular junto ao ouvido. Quase me senti no Brasil.

O que deve ser parecido em Moscou, Sochi ou Vladivostok (não tem nenhum jogo da Copa lá, mas eu cito porque tem gente que estuda geografia pelo tabuleiro do War) são os problemas de comunicação. É muito raro alguém falar inglês por aqui, e a menos que você seja o Charles Chaplin, mímica quase não resolve. Mesmo que a cidade abrigue seis partidas da Copa do Mundo e que tenha sido sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, bares e restaurantes dificilmente têm um cardápio com letras do nosso alfabeto. Até mesmo no luxuoso hotel onde a seleção brasileira está hospedada é difícil achar um funcionário que fale outra língua a não ser o russo.

Para isso, o que tem ajudado, e muito, são os aplicativos de tradução simultânea. Aí é um festival de pegar o smartphone, digitar o que se quer saber, mostrar pro nativo e torcer para que ele faça o mesmo. Tem funcionado bem e rendido conversas simpáticas sem uma palavra.

Tal qual as praias aqui na Riviera Russa, esse tem sido o caminho das pedras.

*Repórter do Estadão

 

 

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