Felipe Trueba/EFE
Felipe Trueba/EFE

Tá russo! Fim da Copa em Samara

A cidade mostrou que o Mundial está acabando: alegria e tristeza no seu último jogo

Gonçalo Junior*, enviado especial / Samara, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 04h00

Logo após informar o número do ônibus que vai para o estádio, a voluntária da Fifa Yulina Soronova diz sorridente que “Samara é a cidade dos foguetes”. Ela conta que seu sonho era ser astronauta, mas que vai se contentar com a engenharia mecânica, que tem salário gordo mesmo no início de carreira. Ela fala rápido e tem umas marcas no rosto de quem cutuca as espinhas. Eu já havia ouvido falar sobre isso. Do centro espacial, não dos sonhos de Yulina. 

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Samara é um dos principais pontos do desenvolvimento aeroespacial russo. Tem o Museu Cósmico e a Universidade Aeroespacial, que conta a história do país no espaço. Abriga um monumento de 68 metros e 20 toneladas do foguete Soyuz, construído para comemorar o voo espacial de Yuri Gagarin, primeiro homem a viajar pelo espaço, em abril de 1961. Aqui, o correto é falar cosmonauta. Astronauta é um termo norte-americano, esperta essa Yulina. No museu é possível ver uniformes, réplicas de naves. É muito parecido com o Museu do Cosmonauta de Moscou. Nesse contexto, o estádio da cidade não poderia ter outro formato senão o de uma nave espacial. Tem um teto circular de 65 metros. Lindo.

Com pouco mais de um milhão de habitantes, Samara fica entre os rios Volga e Samara e tem um dos mais importantes portos da região central do país. Ela é marcante não só quando a gente olha para o céu, em busca de sinais das grandes descobertas, mas também pela paisagem. A orla é o lugar de descanso preferido dos moradores e um bom passeio para os turistas. São cinco quilômetros de extensão que desembocam na praia. As pessoas andam de bicicleta, tomam chá quente (mesmo no calor) ou não fazem nada. Os russos gostam de passear sem destino definido. Saem só para andar.

A cidade conseguiu levar esse clima de contemplação, de passeio sem destino certo, para o caminho do estádio. Tudo é arborizado, com bancos à sombra, gente curtindo o sol, crianças andando de patinete – uma febre por aqui. Na verdade, o estádio fica dentro de um grande Parque Ibirapuera. Ir ao estádio, o próprio caminho em si, em um momento de lazer. Existe um filme antigo, do Leste Europeu, não vou lembrar o nome, em que as personagens realizam uma viagem difícil, uma angústia só. No final, elas chegam a um campo aberto, uma planície, e se deleitam uma árvore. Fim. É isso que Samara propõe com os desenhos na calçada e os bancos da madeira. Antes de chegar ao final, é bom aproveitar o caminho.

 

É uma lição legal nesse momento. A partida entre Inglaterra e Suécia, a razão da nossa viagem, foi a despedida de Samara da Copa. Ao todo, foram seis jogos. Foi aqui que o Uruguai deixou os donos da casa constrangidos por uma vitória por 3 a 0. Samara também viu Senegal dar adeus diante da Colômbia. Foi o último africano a cair, todos os outros haviam sido eliminados na primeira fase. Aproveitaram pouco a viagem.

Como aconteceu em outras sedes, os voluntários da Fifa, gente jovem que se oferece para ajudar a organizar em troca de uma experiência para o resto da vida, fizeram uma festa de adeus. Yulina estava lá jurando amizade para pessoas que talvez nunca mais veja. Festinha comportada, música improvisada na porta do estádio. Só refri. Essa gente jovem reunida lembra que a Copa está acabando. Ela disse que estava feliz e triste.

Relendo o texto, parece que ficou um pouco confuso. Qual é a relação entre a voluntária e a cidade de Samara? Por que tudo isso está em uma coluna que se chama “Tá russo”? Realmente faltou explicar melhor: Samara mostrou que a Copa está acabando: alegria e tristeza no último jogo na cidade. Além disso, bateu a saudade: a voluntária Yulina é a cara da minha filha.

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ 

 

 

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