JONATHAN NACKSTRAND/AFP
JONATHAN NACKSTRAND/AFP

Tá russo! Investigações criminais não podem ser publicadas durante a Copa

Governo de Vladimir Putin não quer a publicação de notícias negativas em relação ao país

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 04h00

Há poucos dias, um diplomata de uma embaixada sul-americana em Moscou me contou que seu escritório tinha deixado de receber uma espécie de boletim da polícia russa sobre criminalidade. Dois dias depois, uma ONG internacional também tocou no assunto, suspeitando que existia algo estranho no silêncio das autoridades sobre seus processos judiciais. 

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A falta de informação não ocorria por acaso. Num esforço para blindar a Copa do Mundo de qualquer polêmica, o governo russo decidiu que não irá mais publicar informação regular da polícia sobre eventuais crimes, operações policiais ou inquéritos, enquanto aplica a lei que proíbe qualquer tipo de protestos.

Um comunicado do Ministério do Interior é claro nas ordens estabelecidas: “suspenda a publicação na imprensa de resultados de investigações e medidas preventivas entre 5 de junho e 25 de julho”. De fato, desde 6 de junho, nenhum boletim tem sido colocado no site do Ministério do Interior. Notícia ruim? Só depois da Copa.

A realidade é que o Mundial deste ano ocorre num país que aplica uma série de controles sobre sua imprensa. Informes de entidades internacionais apontam que, só em 2017, 115 mil casos de censura foram registradas em relação a blogs e órgãos de imprensa.

 

Censura. Oficialmente, o governo insiste que essa é uma ofensiva para impedir atos terroristas. Mas as autoridades estão se utilizando de leis antiterror para justificar qualquer tipo de censura.

Segundo a organização, cerca de 240 sites foram bloqueados a cada dia no país. A cada seis dias, um usuário da internet é ameaçado, enquanto as cortes tem emitido decisões de censura a cada oito dias.

Em julho do ano passado, uma nova lei ainda deu aos serviços de segurança do Estado um maior acesso aos dados de operadores de telecomunicações, enquanto editores do grupo RBC foram demitidos por suas matérias sobre o escândalo do Panama Papers, envolvendo aliados de Vladimir Putin.

“Entre leis draconianas e o bloqueio de sites, a pressão sobre a imprensa independente tem aumentado de forma constante desde que Putin voltou ao Kremlin em 2012”, afirma a entidade Repórteres Sem Fronteira (RSF), que coloca a Rússia na 148.ª posição num ranking de liberdade de imprensa entre 180 países.

“Meios independentes foram colocados sob o controle do Estado ou foram fechados”, indicou. “Enquanto canais de TV continuam sendo inundados de prenda do Estado, o ambiente tem se tornado cada vez mais opressivo para aqueles que questionam o discurso patriótico ou apenas tentam manter um jornalismo de qualidade”, indica.

De acordo com a RSF, pelo menos cinco jornalistas estão presos, um número inédito, além de outros blogueiros. ONGs estrangeiras ainda precisam se registrar perante as autoridades na condição de “agentes estrangeiros”, enquanto ataques contra jornalistas permanecem impunes. Além disso, segundo a organização, Chechênia e Crimeia se transformaram em “buracos negros” no que se refere à informação.

Durante as próximas quatro semanas, as jogadas de Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo serão repetidas de forma insistente nos televisores de bares, metrôs e casas espalhadas pelo país. Seria revolucionário se um desses jogadores aproveitasse sua influência planetária e sua imunidade de fato para, numa coletiva de imprensa em Rostov, Moscou ou Sochi, reforçassem a necessidade de liberdade de informação.

Mas dificilmente ousariam dar esse passo e certamente diriam que futebol e política não se misturam. Jamais.

 

 

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