EFE/SERGEY DOLZHENKO
EFE/SERGEY DOLZHENKO

Tá russo! Moscou é uma cidade acolhedora para torcedores mirins

Cheia de parques acessíveis, ruas largas, circos, espetáculos de teatro, zoológico, cidade parece ser boa para crianças

Glauco de Pierri, enviado especial / Moscou*, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2018 | 04h00

Coberturas extensas são divertidas. Quem não gostaria de voltar para casa com memórias e histórias de uma Copa do Mundo em um país como a Rússia? Mas tem um porém para quem tem o coração mais mole: a saudade dos filhotes. Seja papai ou mamãe, o profissional que está em solo russo sofre quietinho a falta de contato com a prole, ainda mais com um fuso que está sempre seis horas à frente (ou para trás).

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Artur, Raul e Maria Luiza são os meus três pequenos trigêmeos de pouco mais de três anos. Ainda tem o João, o Rafael, a Ana Clara, a Manuela, a Sofia e todas as crianças que passam por nossas vidas. Essa Copa é de vocês também.

Moscou, até agora, tem parecido ser uma cidade acolhedora para os pequenos. Cheia de parques acessíveis, ruas largas, circos, espetáculos de teatro, zoológico. Tudo para entreter a garotada. E a Copa do Mundo? A Copa também.

Na quarta-feira, duas horas antes do jogo entre Portugal e Marrocos, pelo menos 30 crianças corriam atrás de uma bola da Copa pequenininha. A maioria com camisetas da Rússia, mas tinha garota com a camisa de Portugal, meninos com a roupa do Brasil, gente vestida de marroquino, de alemão, mexicano. Cada um falava uma língua diferente, mas se entendiam na brincadeira aos pés da estátua de Lenin, na entrada do estádio Luzhniki. Papais e mamães estavam pertinho, vigiando as crias de longe. Nenhum adulto se metia naquela correria que driblava, além dos coleguinhas, os torcedores que chegavam para ver o jogo. Quase três horas depois de a partida terminar, saí do estádio com destino ao metrô e lá ainda estavam algumas crianças chutando a bola. Mal ligaram que quem tinha pisado no gramado a poucos metros das arquibancadas era ninguém menos do que Cristiano Ronaldo, um dos maiores astros da história do futebol. O que valia ali era a brincadeira, a farra, a curtição.

 

A primeira Copa do Mundo que, de fato, tenho lembrança é a de 1986, disputada no México. Eu tinha sete anos e me recordo com carinho que no primeiro jogo toda a Passagem 6, no Bairro do Limão, se juntou em frente à casa da Dona Jandira para assistir Sócrates marcar o gol que deu a vitória contra a Espanha, por 1 a 0.

Depois, me recordo dos gols do Josimar, e do meu saudoso pai falando que ele deveria jogar no Palmeiras. Lembro de olhar para cima e de quase não encontrar espaço para o azul que cintilava naquele inverno – eram milhares de balões nas cores da bandeira do Brasil que pintavam o céu.

Chegou o jogo contra a França, nas quartas. Decisivo, cada um preferiu ver em sua casa. Não tem festa quando o jogo é para valer. Quer dizer, até tem, mas a festa para na hora da partida. Jogada pela direita do ataque e Careca bate firme e abre o placar. Eu lembro como se fosse hoje do meu irmão Vinicius, do Donato, do Giovanni, correrem para rua para celebrar. Lembro do meu pai feliz, do Marião e do Fabio Paraguai se abraçando. Do Helinho correndo com a bandeira do Brasil para cima e para baixo. Mas veio o empate. Veio o pênalti perdido por Zico. Veio o pênalti francês que pega na trave, nas costas do goleiro Carlos e entra. Veio a derrota.

É nas derrotas que se molda o caráter de uma criança que gosta de futebol. Em meio às lágrimas, meu pai me abraçou e me consolou. “É futebol, filho, é assim. Amanhã a gente ganha”, me disse. E hoje eu entendo aquele olhar, meio que um olhar de culpa misturado com um pedido de desculpas. É assim que olho para as minhas crianças, quase que pedindo desculpas por dentro por ter feito eles, aos três aninhos de idade, já serem tão identificados com o mundo da bola, com o mundo verde do papai. Mas é assim que precisa e que vai ser, sem sombra de dúvidas. São as emoções da vida. Viva a Copa do Mundo das crianças.

  

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ 

 

 

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