MARKO DJURICA/REUTERS
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Tá russo! Nem toda cidade-sede respira a Copa

Rostov-on-Don: entre o desprezo ao novo e uma bela história

Leandro Silveira*, enviado especial / Sochi, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 04h00

A realização da Copa do Mundo em locais pouco afeitos ao futebol não é exclusividade do Brasil. Com 12 estádios e 11 cidades-sede para compartilhar os 64 jogos da edição de 2018 do torneio, a seleção brasileira e todo o séquito de jornalistas, torcedores e “parças” dos jogadores que a seguem esbarraram em uma delas logo na partida de estreia na competição, o empate por 1 a 1 com a Suíça: Rostov-on-Don.

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O nome pode soar curioso para o leitor, mas é (quase) explicativo. O Rio Don passa por Rostov, o que a torna um importante centro de transporte fluvial por sua ligação com os mares Báltico, Branco e Cáspio, unindo o Ocidente ao Oriente. A paixão pelo futebol, porém, parece não ter ainda chegado à cidade, embora conte com um time na Primeira Divisão da Rússia, o FC Rostov.

Em Rostov-on-Don, tudo ligado à Copa do Mundo soa como novidade. Começa pelo aeroporto recém-ampliado, com cheiro de novo para quem passa por suas escadas rolantes e esteiras para retirada de malas. E também é assim na rede hoteleira, com opções de hospedagem que passam pelo natural processo de adaptação de qualquer novo modelo de negócios.

Não é muito diferente com a Arena Rostov. Embora oficialmente a sua obra tenha sido concluída em dezembro de 2017, só recebeu três jogos do time da casa em 2018 no Campeonato Russo. E na véspera do seu primeiro confronto na Copa do Mundo, o duelo entre Brasil e Suíça, a reportagem do Estado se deparou até com caixas de parafuso na tribuna de imprensa.

Tanta novidade deveria atrair a atenção dos moradores de Rostov-on-Don, mesmo que passageira, como em cidades-sede da Copa de 2014, mas seus habitantes preferem se vangloriar dos feitos do time de handebol da cidade e da seleção nacional de hóquei no gelo, em mais um capítulo do conflito entre modernidade e história no país.

Assim, esta cidade do sul da Rússia e banhada por cinco rios vale mais por suas histórias de guerras e literaturas, sua linda igreja ortodoxa com tetos dourados e uma bizarra história de um serial killer. O problema é o torcedor encontrar tempo para descobrir tudo isso entre um jogo e outro – serão cinco até o final da Copa.

 

É de lá que vem um dos maiores nomes da literatura russa, Mikhail Sholokhov, agraciado com o Nobel de Literatura em 1965. Mas também é berço de Andrei Chikatilo, o Açougueiro de Rostov, que teria matado 53 pessoas entre 1978 e 1990. E do Rio Don, de onde é possível avistar a linda Arena Rostov, há uma estátua de um guerreiro cossaco, para retratar o espírito de uma cidade de importantes conflitos da Guerra Civil local e da Segunda Guerra Mundial – Rostov-on-Don chegou a ser empossada pela Alemanha nazista.

Mas e o futebol? Para além da modesta história do FC Rostov, vice-campeão nacional em 2016, a cidade exibe orgulhosa uma estátua de Viktor Ponedelnik, o autor do gol do título da Eurocopa de 1960 da então União Soviética sobre a extinta Iugoslávia, em final definida apenas na prorrogação. O ex-atacante nasceu na cidade e a estátua enverga a frente do Olimp-2, antigo estádio onde o FC Rostov mandava os seus jogos até a construção da arena para a Copa do Mundo.

A estátua segue lá, inalterada, ainda que as atenções se voltem para a nova arena, palco de uma das primeiras reclamações sobre uma das modernidades implementadas na Copa: o VAR. No caso, o sua não-utilização a favor da seleção brasileira em duas decisões controversas da arbitragem no jogo com a Suíça. Enquanto a Rússia se debate entre modernidade e história, vale tentar esquecer um pouco o futebol, se concentrar no que Rostov-on-Don tem de belo e aprender como se fala “elefante branco” no idioma local.

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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