Lee Smtih/Reuters
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Tá russo! O luxo de assistir a um jogo da Copa quando se trabalha nela

Acredite, assistir às partidas do Mundial no país em que ele acontece é bem mais difícil do que assisti-las de longe

Marcio Dolzan, enviado especial / Sochi, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 04h00

Cinco coisas legais que sempre curti nas Copas do Mundo: os jogos da seleção brasileira, os jogos da seleção uruguaia, os jogos da seleção italiana, os jogos da seleção argentina e os jogos de qualquer seleção, porque afinal de contas é Copa do Mundo. Neste ano, você sabe, não está sendo possível acompanhar a seleção italiana. E particularmente para mim, que estou seguindo os passos da seleção brasileira, está sendo difícil acompanhar também os jogos dos uruguaios, dos argentinos e dos demais. 

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Acredite, assistir às partidas do Mundial no país em que ele acontece é bem mais difícil do que assisti-las de longe. A gente sai para acompanhar treinos, tem os deslocamentos, as esperas sem TV nos aeroportos... São raras as situações em que a hora de descanso coincide com a de algum jogo, e enquanto isso o bonde (e a Copa) vai passando.

O que poderia ser um pouco mais viável para mim seria assistir aos jogos da Argentina. Eles ocorreram sempre na véspera ou antevéspera dos jogos do Brasil, e, em mais de uma vez, num horário que não seria impeditivo, tipo o da janta. Mas sempre houve um imprevisto.

Quando estávamos em São Petersburgo, decidimos sair para jantar num restaurante próximo à Fan Fest, “para acompanharmos a movimentação da torcida brasileira e assistir ao jogo em algum restaurante próximo”. Primeiro, não conseguimos chegar nem perto da Fan Fest porque ela estava mais lotada que a plataforma do metrô de São Paulo num fim de tarde de sexta-feira, e a polícia russa vetou o acesso num raio de duas quadras. Segundo, não conseguimos entrar em nenhum restaurante no limite das duas quadras porque eles também estavam quase tão lotados quanto a plataforma do metrô de São Paulo num fim de tarde de sexta. 

 

Saímos caminhando de um lado a outro, jogo da Argentina com a Croácia já em andamento, poxa vida, até que encontramos um restaurante escondido num subsolo. O lugar estava quase vazio, o clima era agradável, dava até para ouvir o barulho de um pássaro no interior do restaurante - sim, havia um pássaro de fato lá dentro. Duas TVs estavam ligadas em jogo com um time de camisa azul celeste. “Demos a sorte grande”, pensei. Sentamos, pedimos o cardápio, olhamos para a TV e... era o VT de Uruguai x Arábia Saudita, que haviam jogado na véspera.

Menos mal que quatro pessoas assistiam ao jogo da Argentina por um notebook na mesa ao fundo. Entreolhávamos de vez em quando, e eles vibraram com cada um dos três gols que levou a seleção vizinha. 

No último jogo da fase, estávamos em Moscou. Fomos jantar num restaurante brasileiro onde ninguém que trabalhava lá falava o português, a feijoada era um arroz com feijão, farofa e uma folhinha de alface, e o bife à cavalo não era um bife e vinha com purê (mas era delicioso). Chegamos já no segundo tempo do jogo da Argentina. 

Todos lá dentro torciam contra, mas aí vem La Mano de Diós, o Retorno, que foi referendada até mesmo pelo VAR. Meteram a mão (literalmente) na nossa Nigéria e no nosso bife à cavalo.

Pois este sábado, finalmente, consegui assistir ao jogo da Argentina. Cheguei cedo ao Centro de Mídia do Fisht Stadium, lotado de jornalistas que dali a poucas horas trabalhariam na partida entre Uruguai e Portugal, peguei um lugar próximo à TV e fui ver Messi & Companhia em ação.

Aí a França faz 1 a 0, muita gente vibra, a Argentina vira o jogo, outros tantos vibram - inclusive fazendo menção a uma mãe que nem sequer estava lá, que feio -, e a França devolve a virada. Por pouco não passo a Copa da Rússia sem conseguir ver a Argentina, como aconteceu com a Itália. 

Este sábado foi um dia bom. Mbappé que o diga.

*MARCIO DOLZAN É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

 

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