Kai Pfaffenbach/Reuters
Kai Pfaffenbach/Reuters

Tá russo! Russas esperam que casos de assédio joguem luz sobre um drama cotidiano

País que sedia a Copa do Mundo retrocede no direito das mulheres

Jamil Chade, enviado especial / Moscou*, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2018 | 04h00

Abusos contra mulheres que não resultem em ossos quebrados e que não se repitam mais de uma vez por ano não são crimes, se ocorrerem entre as quatro paredes de uma casa. A lei poderia fazer parte de um conto de Anton Chekhov, do século 19. Mas, de fato, foi aprovada no ano passado pelo Parlamento russo, com apenas três votos contrários e 380 a favor.

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No dia da votação, em fevereiro de 2017, a ativista Alena Popova desafiou a polícia local para fazer um protesto diante do Parlamento. Num cartaz, ela exibia ironicamente um antigo provérbio russo: “Se ele te bater, ele te ama”. 

Se os vídeos mostrando brasileiros, argentinos ou colombianos cometendo atos de assédio viralizaram e passaram a fazer parte da história dos primeiros dias da Copa do Mundo, ativistas russas e mulheres esperam que a polêmica não se limite a denunciar o comportamento dos torcedores latino-americanos. O objetivo é que também sirva para constranger uma sociedade russa com fortes componentes de um patriarcado cada vez mais conservador.

A lei que retira o caráter de crime da violência doméstica na Rússia significa que, na prática, é a mulher que paga se ela denunciar o marido por um tapa, soco ou um estupro. Pela nova lei, um ato de violência seria punido por 15 dias de prisão. Mas pode ser substituída por uma multa de cerca de US$ 500,00 (R$ 1.890).

 

Mas com milhares de mulheres que apenas têm contas conjuntas com seu marido, não trabalham ou sofrem para obter uma renda justa, a punição financeira recai sobre a mesma mulher que foi vítima da violência. ONGs russas relatam como dezenas de mulheres têm se queixado de que, depois de conseguir que o marido pague a multa, ficam impossibilitadas de ter acesso a suas contas ou a mesadas que os parceiros davam. Na Organização Internacional do Trabalho (OIT), as estimativas são de que a renda de uma russa é ainda 40% inferior a de um homem, um dos piores índices entre as grandes economias do mundo.

O temor dos ativistas é de que a lei torne as denúncias de mulheres contra seus parceiros cada vez mais raras. Hoje, a Human Rights Watch estima que 12 mil mulheres morrem a cada ano nas mãos de seus maridos.

Num país onde a palavra “feminismo” foi classificada por grupos reacionários como uma tentativa de imposição de uma cultura ocidental, movimentos como #MeToo tiveram uma baixa adesão na população.

No início do ano, o presidente Vladimir Putin chegou a ironizar que seu país teria “as melhores” prostitutas do mundo, enquanto, por outro lado, estimativas apontam que apenas 20% dos casos de violência contra russas terminam em denúncias oficiais.

Mas não foi sempre assim. A Revolução Russa de 1917 trouxe direitos sem precedentes para as mulheres. Elas passaram a ter a possibilidade de votar e até de abortar. Ainda que o plano tenha fracassado, a lei a partir dos anos 30 chegou a prever que empresas dessem os mesmos salários para homens e mulheres e, na economia comunista, todos os adultos precisavam trabalhar. Educação universal também foi garantida. Mas com a contrapartida de uma repressão brutal, falta de liberdade, censura, produção ineficiente e mortes de qualquer opositor ao regime stalinista.

Agora, a esperança de ativistas como Popova é de que a Copa e a polêmica envolvendo os brasileiros sirvam para fortalecer sua causa na Rússia. Ou pelo menos as blindar dos constantes ataques que sofrem das alas mais conservadoras da sociedade. Um legado inesperado e irônico de um Mundial de futebol masculino. 

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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