Felipe Trueba/EFE
Felipe Trueba/EFE

Tá russo! Um estádio panóptico

Para viver a emoção da Copa, torcedor é desnudado pelo serviço de inteligência russo

Jamil Chade*, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2018 | 04h00

Ele é visto. Mas não vê. Ele é o objeto de informação. Nunca um sujeito na comunicação.” Ao tratar da origem da cadeia, da situação do detento e da ideia do panóptico, o filósofo Michel Foucault antecipou o debate a respeito da sociedade moderna do monitoramento e vigilância.

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O conceito do panóptico havia sido desenvolvido no século 18 por Jeremy Bentham e ampliado por Foucault ao tentar entender a disciplina. Tratava-se de um edifício redondo, com uma torre no centro e celas ao redor. Em cada uma delas, o prisioneiro era constantemente vigiado pela torre central, sem jamais saber quando haveria alguém olhando para ele.

Em 2018, o panóptico se transferiu para os estádios da Copa. Não existe uma torre. No seu lugar, um impressionante sistema eletrônico, com um banco de dados de 1,6 milhão de torcedores. Sob a justificativa da segurança, o aparelho de controle do estado russo convenceu a Fifa de que todos que optassem ir a um estádio passariam a ser fichados e teriam seu passado vasculhado.

Cuidadosamente elaborada, essa ficha ganhou um nome sedutor: FAN ID, colorido e simpático. Ironicamente, o documento que passeia pelas cidades russas se transformou em uma medalha para os torcedores, que desfilam orgulhosos do que levam em volta do pescoço.

Mas a realidade é que, para entrar em um estádio e viver a emoção da Copa do Mundo, o torcedor não passa apenas por um detector de metal. Ele também é, nos centros de informática do serviço de espionagem, desnudado em sua vida particular. E sem saber disso.

Alexey Sorokin, CEO da Copa, explicou nesta sexta-feira que o objetivo era o de segurança, garantindo que potenciais terroristas, criminosos ou hooligans não tivessem acesso às arquibancadas. O Brasil também já se beneficiou da existência do sistema e, graças ao FAN ID, prendeu um foragido por roubos em correios que foi simplesmente torcer pela seleção num jogo na Rússia.

O argumento da segurança não é injustificado. A Rússia foi alvo de atentados terroristas, inclusive na cidade de Vladimir Putin, São Petersburgo. O envolvimento de Moscou na guerra da Síria ainda levou jihadistas como o Estado Islâmico a prometer atentados durante a Copa. Não se entra em um metrô, hotel ou shopping sem passar por detectores de metais. Algumas cidades passaram a ser alvo de “terrorismo telefônico”: ligações sobre alertas falsos de bomba. 

 

O próprio futebol virou alvo. Como se esquecer das bombas que explodiram em Paris durante o amistoso entre França e Alemanha?

Assim, quando o serviço de inteligência russo propôs fichar todos os torcedores, não houve resistência por parte das autoridades do futebol.

Mas se torcedor é beneficiado por um sistema que tenta garantir a tranquilamente na hora de torcer, sem risco de uma bomba, o que ninguém explica é o que ocorrerá quando o papel picado deixar de cair e a bola parar de rolar.

Há duas semanas pergunto de forma incessante o que será feito com a informação sobre cada um dos torcedores, quando a Copa terminar. O arquivo sobre 1,6 milhão de pessoas ficará com quem? As informações coletadas serão destruídas? Eu não tenho nada a dever. Mas o fato de eu ter vindo a uma Copa do Mundo justifica que eu tenha transferido minhas informações ao serviço de espionagem russo?

Eu coloquei, de forma frontal, essa questão a Sorokin. Uma vez mais, não obtive resposta. Ele apenas indicou que o acordo para a criação do FAN ID havia sido fechado em um entendimento assinado entre a Fifa e as autoridades russas.

Já são vários os ativistas russos que alertam para o período pós-Copa. “Não sabemos se essa operação de segurança vai continuar depois, sob a justificativa de que funcionou”, aponta uma delas, na condição de anonimato.

O temor é de que a censura e repressão contra manifestações sem qualquer cunho jihadistas se acentuem na Rússia quando as câmeras do mundo deixarem de olhar para Moscou. E, em caso de violação dos direitos básicos, a realidade é que aqueles que serão alvos de alguma arbitrariedade não terão condições de pedir o VAR. Na Rússia, esse direito se limita às quatro linhas.

*REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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