Tacuary no caminho dos brasileiros

Dez dias atrás, o Tacuary recebeu o Libertad, no estádio Roberto Bettega, numa das partidas mais importantes de seus 80 anos de vida. Naquele duelo pelo Torneio Clausura da Série A do Paraguai, estava em jogo classificação inédita para a fase preliminar da Copa Libertadores da América. Nas arquibancadas da moderna arena com 20 mil lugares erguida no bairro de Zevallos Cué, periferia de Assunção, apenas 309 torcedores festejaram o empate de 1 a 1 que garantiu a façanha do time dirigido pelo técnico Oscar Paulín, argentino que há 30 anos vive no Paraguai.Esse resultado colocou o Tacuary no caminho do futebol brasileiro. Palmeiras e São Caetano, dependendo do julgamento do STJD e da última rodada do campeonato nacional, disputam o direito de enfrentar o time paraguaio na fase preliminar da Libertadores. Serão dois jogos, nos dias 2 e 9 de fevereiro.Os jogadores do Tacuary não estranharam a falta de torcedores, mesmo num momento tão importante na história do clube. Afinal, sempre estiveram acostumados a apresentar-se para público pequeno, quando são mandantes. Na rodada do dia 28 de outubro, por exemplo, só 62 fiéis pagaram para ver a derrota por 1 a 0 para o rebaixado Sol de América. "Não temos mesmo forte apelo popular", admite Paulín, 52 anos, que na década de 70 desembarcou no país para defender o Guarani e nunca mais saiu. "Nossa equipe sempre freqüentou a segunda ou a terceira divisões e por isso não atrai simpatizantes", justificou o técnico. O Tacuary, que tem distintivo alvinegro e no formato daquele de Santos ou Bragantino, é uma espécie de Juventus da Rua Javari: é antigo e não lhe falta tradição, mas torcida. Grandes arrecadações ou arquibancadas lotadas não são prioridade do Tacuary, que se dá o luxo de manter o velho estádio Toribio Vargas, para 4 mil pessoas, só para jogos das equipes juvenis. O que interessa, reconhece Paulín, é revelar jogadores. "Somos um time fornecedor de talentos", explica o treinador, braço direito de Francisco Ocampo, empresário argentino que assumiu o clube, anos atrás, e o levou à elite doméstica. "Trabalhamos em várias frentes para formar atletas e depois repassá-los no mercado local ou mesmo internacional."O Tacuary cedeu jogadores para rivais como Olimpia e Libertad, e o patrão Ocampo ganhou dinheiro ao intermediar transferências importantes como as de Gavilán (Inter de Porto Alegre), Roque Santa Cruz (Bayern de Munique) ou Guzman (Juventus).Os contatos com dirigentes do clube de Turim se transformaram em amizade com Roberto Bettega, antigo astro da Juventus e hoje um de seus dirigentes. A admiração pelo titular da seleção italiana do fim dos anos 80 levou Ocampo a batizar o novo estádio com o nome de Bettega.Vitrine - A maior parte do elenco do Tacuary é formada por atletas paraguaios. Segundo Paulín, 15, no máximo 16 jogadores, são profissionais - de preferência jovens - e o restante juniores para serem colocados na vitrine, à espera de que outros clubes se interessem por seus passes.Na equipe que ficou em terceiro lugar na temporada de 2004, apenas o goleiro é estrangeiro: Aurrecochea, 23 anos, veio do Uruguai para substituir o titular Gonzalez, cedido por empréstimo para o vice-campeão Libertad. Os outros são pratas-de-casa.A defesa que atuou mais vezes foi formada por Celso Gonzalez, Russi, Samodio e Gamarra; o meio-campo com Carlos Leite, Peralta, Burgos e Silva (ou Ibarra); no ataque, jogam Roman, 25 anos, já rodado e destaque do time, além de Ortellado, artilheiro do Tacuary no Clausura com 6 gols.É um time que pode surpreender os brasileiros, imagina Paulín, ex-responsável pelas seleções de base do Paraguai. "Quando subimos, disseram que seríamos fenômeno passageiro no Paraguai", recorda. "No entanto, estamos há dois anos na Série A e agora vamos para a Libertadores. Por que não podemos bater Palmeiras ou São Caetano?"Sua pretensão não é megalomaníaca. A classificação para a chave principal da Libertadores consolidaria a ascensão do ex- time de periferia e certamente aumentaria o valor do elenco. O que vale é faturar.

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