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Tambores punidos

O Estado perde a batalha no combate à violência ligada ao futebol. O reconhecimento de impotência diante da força dos bandos veio na decisão de optar por torcida única nos clássicos em São Paulo até o final do ano. Como medida preventiva adicional, proíbem-se nos estádios faixas, cartazes, adereços e instrumentos musicais identificados com as uniformizadas. Imagina-se que, sem tambores, a situação se acalme. Pena.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

06 de abril de 2016 | 03h00

A escolha por arquibancadas sem pluralidade nos grandes jogos não é nova – já houve experiências semelhantes, no Brasil e no exterior. Com críticas e restrições. Não passa de paliativo, de reação para situação de emergência. Espécie de resposta para a sociedade, demonstração de atitude rápida e eficiente das autoridades. Enfim, maneira de não parecer que estejam a dormir em berço esplêndido.

Na prática, frustra, pois passa a sensação de que não há como impedir o vandalismo. O brigões tendem a interpretar o gesto como rendição oficial, e se sentirão superiores. Em vez de serem apartados, encherão o peito ao ficar com espaço apenas para si. Conseguiram afastar o inimigo (ao qual podem encontrar por aí, a qualquer momento) e têm poder de amedrontar incautos torcedores avulsos, aqueles que teimam em ir ao campo para divertir-se.

Outra decisão se refere à restrição na venda de ingressos. Creem os autores do pacote de urgência que surgirão dificuldades para a entrada dos arruaceiros nos locais dos jogos. Pagará o pato, mais uma vez, o sujeito pacato. Esse ficará sem os bilhetes nos momentos decisivos. Ingenuidade pensar que não irão parar no bolso da turma de sempre, das tropas de choque dos clubes. Elas têm recursos para driblar o cerco, como provam no dia a dia.

Os incidentes, os confrontos, as emboscadas, as mortes ocorrem há muito tempo. E, em momentos de comoção, como o de agora, se repetem os discursos rotineiros. Sempre com tom severo, prenúncio de fim da bagunça e início de era de controle. Até a próxima morte, de inocentes, como a de domingo, ou de encrenqueiros. Para, então, recomeçar a lengalenga. Pesquisa simples na internet mostrará pronunciamentos semelhantes dois meses atrás, um ano, três, cinco, dez, vinte...

Alega-se que existe monitoramento das andanças dos principais grupos extremistas. Assim como se diz que não há como prever entreveros ocasionais. Estes seriam como estouro da boiada, vêm de uma hora para outra, fazem parte do imponderável. Será? Mapeamento dos pontos de atrito ajudaria a detectar as áreas de risco maior. Há recursos técnicos para esse tipo de trabalho.

Repare que os episódios se concentram em certas estações de metrô e trem. Em geral, as mesmas. As batalhas também têm seus palcos tradicionais. Onde há menos perigo, atualmente, é justamente dentro dos estádios. São esporádicas as rixas lá. Ou seja, aumenta a vigilância onde ela funciona.

Os serviços de inteligência contam com gente capacitada, não seria tarefa impossível colocar agentes no meio do furacão, na intimidade dessa guerrilha. Ora, fizeram no passado, o que impede de atuar hoje? As refregas são até marcadas por redes sociais, na maior cara dura. E mais: são tantas as figurinhas carimbadas nas brigas, os reincidentes, os que têm prontuário extenso. Como continuam a circular por aí? E de que adianta fazer centenas de detenções num dia para que, na sequência, estejam soltos, ou sob pagamento de fiança ou depois de assinar um prosaico termo circunstanciado?

Longe de pedir estado policialesco! Justiça sempre e acima de tudo. Muito menos se deve demonizar todos os integrantes de organizadas. Tem quem curta assistir às partidas em grupos. Há quem encontre voz e identidade nessas associações. 

O sonho – nem pedido é – se limita a ver os violentos rastreados e chamados a pagar por covardias e eventuais crimes. Daí não será preciso o espetáculo triste da torcida única, atestado de que a ignorância sobressai e que existe muita conversa fiada.

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