Tapetão em cena

Velho conhecido do futebol nacional entra em ação para tumultuar reta final da Série A

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2016 | 06h00

Sandro Meira Ricci não dá um drible, não faz um lançamento, não é artilheiro, não comanda um time. Sopra apito. E, dessa forma, já virou um dos principais personagens do Brasileiro de 2016. Por causa de uma presepada dele, com os auxiliares como coadjuvantes, o campeonato bagunçou na reta final.

Por demorar a decidir se confirmava ou anulava o segundo gol do Flu no clássico com o Flamengo, abriu espaço para entrar em campo o tapetão, velho conhecido do futebol patrício, que decidiu títulos e fez mais história do que muito craque.

A lambança de Meira Ricci não se limitou à oscilação entre anular, referendar e anular o gol tricolor, que deixaria o placar em 2 a 2. Esse vaivém, embora não tão corriqueiro, acontece. Juízes ficam em dúvida, ora bolas. 

O problema cresceu por causa do comportamento do árbitro, que quebrou protocolo ao passar 13 minutos a confabular com colegas, com o representante da CBF, com policiais, jogadores, com técnicos e o diabo a quatro. Tomasse uma medida e fim de papo. Dali em diante que segurasse o rojão.

Meira Ricci ficou com medo dos desdobramentos, por eventual opção equivocada, e escancarou portas para especulações e para ações no tribunal esportivo. Gritou na cara de todos a sensação de que “interferência externa” – entendam-se imagens de tevê – influenciou a postura final. E, mesmo que tenha acertado ao não reconhecer o gol, não poderia fazê-lo dessa forma.

Meira Ricci teria evitado a balbúrdia no dia, e o prolongamento da questão, se tivesse chamado os auxiliares num canto, o meio do campo talvez, e sozinhos deliberassem. Na surdina, sem alarde, mesmo que soubessem o que o olhar eletrônico havia detectado. Ou, após a partida, dessem declarações à imprensa, na base da manjada desculpa esfarrapada. “Gente, ficamos em dúvida, mas optamos pela anulação. Muito obrigado, e passar bem.”

Em vez, ficou em silêncio, saiu na moita e, para piorar, na sequência carregou os auxiliares para uma curta e rentável temporada em gramados da Índia. Pegaram um breve período sabático e largaram a bomba por aqui. Deram explicações meia-boca para a Comissão de Arbitragem e se mandaram para terras longínquas. 

O Fluminense não piscou duas vezes antes de mandar ofício ao STJD e pedir a anulação do duelo. Como tem prática de elaborar belas peças jurídicas, viu a questão acolhida. Num estalar de dedos, veio a ordem para a CBF não tornar o oficial o resultado de 2 a 1, obtido pelo Fla em campo, antes de a questão ser julgada. Se Deus quiser, até o dia 4 de novembro. Ou, no mais tardar, até o feriado da República. 

O Flu agarra-se à tese de erro de direito para pedir a anulação do jogo. Por esse aspecto, não está errado. Existe legislação a respeito no futebol. Mas, moralmente comete um deslize. A anulação do gol foi correta, havia impedimento. A grita teria respaldo popular se, com toda a confusão, Meira Ricci tivesse ignorado um gol legal. 

A iniciativa lembra aquela do Palmeiras, anos atrás, quando exigia a confirmação de gol de mão de Barcos diante do Inter, em Porto Alegre. Na ocasião, o juiz primeiro considerou normal o lance, para em seguida voltar atrás, supostamente alertado por alguém que vira as imagens na tevê. Uma cara de pau devidamente ignorada pelo tribunal. 

Talvez o barulho provocado pelo Flu tenha desfecho semelhante. Para tanto, basta que Meira Ricci alegue que se embananou por conta própria. Como não há “provas robustas”, como comentou alguém do STJD, ficará difícil desmontar a fábula. Os três pontos são do Flamengo, que os conquistou na bola, independentemente de outros vacilos da arbitragem. Contestar o resultado é jogar contra o campeonato. 

Enfadonhas as trocas de acusações entre dirigentes, as insinuações jogadas no ar. Há desejo de que o público se convença de que sobram maracutaias. Se for verdade, todos os cartolas são responsáveis, ao manterem os times numa farsa.

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